Eu vou dormir, vou dormir…
Dormem os astros também.
Eu vou dormir a sorrir
O sorriso que os astros têm;

E entre mim e o firmamento
Haverá tal ligação
Que terei entendimento
Com esses céus sem razão.

E eu, o proscrito do espaço
Casarei meu nada ser
Com esse abstracto regaço
Com que a mãe-noite é mulher.

E as falsas núpcias instáveis
Que resultarão do abismo
Dar-me-ão estes planos hábeis
Com que tenho misticismo.

Mas que digo? Que conheço?
Vou dormir, vou sossegar,
E a sombra do que me esqueço
É um rastro vago no ar.

4 - 2 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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