1
J neste tempo o lcido Planeta
Que as horas vai do dia distinguindo,
Chegava desejada e lenta meta,
A luz celeste s gentes encobrindo;
E da casa martima secreta
Lhe estava o Deus Nocturno a porta abrindo,
Quando as infidas gentes se chegaram
s naus, que pouco havia que ancoraram.

2
Dantre eles um, que traz encomendado
O mortfero engano, assi dizia:
«Capito valeroso, que cortado
Tens de Neptuno o reino e salsa via,
O Rei que manda esta Ilha, alvoraado
Da vinda tua, tem tanta alegria
Que no deseja mais que agasalhar-te,
Ver-te e do necessrio reformar-te.

3
«E porque est em extremo desejoso
De te ver, como cousa nomeada,
Te roga que, de nada receoso,
Entres a barra, tu com toda armada;
E porque do caminho trabalhoso
Trars a gente dbil e cansada,
Diz que na terra podes reform-la,
Que a natureza obriga a desej-la.

4
« E se buscando vs mercadoria
Que produze o aurfero Levante,
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutfera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,
O rubi fino, o rgido diamante,
Daqui levars tudo to sobejo
Com que faas o fim a teu desejo.»

5
Ao mensageiro o Capito responde,
As palavras do Rei agradecendo,
E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
No entra pera dentro, obedecendo;
Porm que, como a luz mostrar por onde
V sem perigo a frota, no temendo,
Cumprir sem receio seu mandado,
Que a mais por tal senhor est obrigado.

6
Pergunta-lhe despois se esto na terra
Cristos, como o piloto lhe dizia;
O mensageiro astuto, que no erra,
Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria.
Desta sorte do peito lhe desterra
Toda a suspeita e cauta fantasia;
Por onde o Capito seguramente
Se fia da infiel e falsa gente.

7
E de alguns que trazia, condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Por que pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Por que notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e por que vejam
Os Cristos, que s tanto ver desejam.

8
E por estes ao Rei presentes manda,
Por que a boa vontade que mostrava
Tenha firme, segura, limpa e branda,
A qual bem ao contrrio em tudo estava.
J a companhia prfida e nefanda
Das naus se despedia e o mar cortava.
Foram com gestos ledos e fingidos
Os dous da frota em terra recebidos.

9
E despois que ao Rei apresentaram,
Co recado, os presentes que traziam,
A cidade correram, e notaram
Muito menos daquilo que queriam;
Que os Mouros cautelosos se guardaram
De lhe mostrarem tudo o que pediam;
Que, onde reina a malcia, est o receio
Que a faz imaginar no peito alheio.

10
Mas aquele que sempre a mocidade
Tem no rosto perptua, e foi nascido
De duas mes, que urdia a falsidade
Por ver o navegante destrudo,
Estava nũa casa da cidade,
Com rosto humano e hbito fingido,
Mostrando-se Cristo, e fabricava
Um altar sumptuoso que adorava.

11
Ali tinha em retrato afigurada
Do alto e Santo Esprito a pintura,
A cndida Pombinha, debuxada
Sobre a nica Fnix, virgem pura.
A companhia santa est pintada
Dos Doze, to torvados na figura,
Como os que, s das lnguas que caram
De fogo, vrias lnguas referiram.

12
Aqui os dous companheiros, conduzidos
Onde com este engano Baco estava,
Pem em terra os giolhos, e os sentidos
Naquele Deus que o Mundo governava.
Os cheiros excelentes, produzidos
Na Pancaia odorfera, queimava
O Tioneu, e assi por derradeiro
O falso Deus adora o verdadeiro.

13
Aqui foram de noite agasalhados,
Com todo o bom e honesto tratamento,
Os dous Cristos, no vendo que enganados
Os tinha o falso e santo fingimento.
Mas, assi como os raios espalhados
Do Sol foram no mundo, e num momento
Apareceu no rbido Horizonte
Na moa de Tito a roxa fronte,

14
Tornam da terra os Mouros co recado
Do Rei, pera que entrassem, e consigo
Os dous que o Capito tinha mandado,
A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
E, sendo o Portugus certificado
De no haver receio de perigo
E que gente de Cristo em terra havia,
Dentro no salso rio entrar queria.

15
Dizem-lhe os que mandou, que em terra viram
Sacras aras e sacerdote santo,
Que ali se agasalharam e dormiram,
Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
E que no Rei e gentes no sentiram
Seno contentamento e gosto tanto,
Que no podia, certo, haver suspeita
Nũa mostra to clara e to perfeita.

16
Co isto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que subiam;
Que levemente um nimo se fia
De mostras que to certas pareciam.
A nau da gente prfida se enchia,
Deixando a bordo os barcos que traziam.
Alegres vinham todos, porque crm
Que a presa desejada certa tm.

17
Na terra cautamente aparelhavam
Armas e munies, que, como vissem
Que no rio os navios ancoravam,
Neles ousadamente se subissem;
E nesta treio determinavam
Que os de Luso de todo destrussem,
E que, incautos, pagassem deste jeito
O mal que em Moambique tinham feito.

18
As ncoras tenaces vo levando,
Com a nutica grita costumada;
Da proa as velas ss ao vento dando,
Inclinam pera a barra abalizada.
Mas a linda Ericina, que guardando
Andava sempre a gente assinalada,
Vendo a cilada grande e to secreta,
Voa do Cu ao Mar como ũa seta.

19
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerlea companhia,
Que, porque no salgado Mar nasceu,
Das guas o poder lhe obedecia.
E, propondo-lhe a causa a que deceu,
Com todas juntamente se partia,
Pera estorvar que a armada no chegasse
Aonde pera sempre as acabasse.

20
J na gua erguendo vo, com grande pressa,
Com as argnteas caudas, branca escuma;
Cloto co peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma.
Salta Nise, Nerine se arremessa,
Por cima da gua crespa, em fora suma.
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

21
Nos ombros de um Trito, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
No sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga to fermosa.
J chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se, e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.

22
Pe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, esto de jeito
Que em vo assopra o vento, a vela inchando;
Pem no madeiro duro o brando peito,
Pera detrs a forte nau forando;
Outras em derredor levando-a estavam,
E da barra inimiga a desviavam.

23
Quais pera a cova as prvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado,
As foras exercitam, de inimigas
Do inimigo Inverno congelado;
Ali so seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas, estorvando
gente Portuguesa o fim nefando.

24
Torna pera detrs a nau, forada,
Apesar dos que leva, que, gritando,
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando.
O mestre astuto em vo da popa brada,
Vendo como diante ameaando
Os estava um martimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

25
A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hrrida batalha.
No sabem a razo de fria tanta,
No sabem nesta pressa quem lhe valha:
Cuidam que seus enganos so sabidos
E que ho-de ser por isso aqui punidos.

26
Ei-los subitamente se lanavam
A seus batis veloces que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam,
Saltando na gua, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro sbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mos inimigas entregar-se.

27
Assi como em selvtica alagoa
As rs, no tempo antigo Lcia gente,
Se sentem porventura vir pessoa,
Estando fora da gua incautamente,
Daqui e dali saltando (o charco soa),
Por fugir do perigo que se sente,
E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
Ss as cabeas na gua lhe aparecem:

28
Assi fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Tambm foge, saltando na gua amara.
Mas, por no darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A ncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.

29
Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, no cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E, vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos ou das guas sem corrente,
Que a nau passar avante no podia,
Havendo-o por milagre, assi dezia:

30
— « Caso grande, estranho e no cuidado!
Milagre clarssimo e evidente!
Descoberto engano inopinado!
Prfida, inimiga e falsa gente!
Quem poder do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo, sabiamente,
Se l de cima a Guarda Soberana
No acudir fraca fora humana?

31
«Bem nos mostra a Divina Providncia
Destes portos a pouca segurana;
Bem claro temos visto na aparncia
Que era enganada a nossa confiana.
Mas pois saber humano nem prudncia
Enganos to fingidos no alcana,
Tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti no pode ser guardado!

32
«E, se te move tanto a piedade
Desta msera gente peregrina,
Que, s por tua altssima bondade,
Da gente a salvas, prfida e malina,
Nalgum porto seguro, de verdade,
Conduzir-nos, j agora, determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois s por teu servio navegamos.»

33
Ouviu-lhe estas palavras piadosas
A fermosa Dione, e, comovida,
Dantre as Ninfas se vai, que sadosas
Ficaram desta sbita partida.
J penetra as Estrelas luminosas,
J na terceira Esfera recebida
Avante passa, e l no sexto Cu,
Pera onde estava o Padre, se moveu.

34
E, como ia afrontada do caminho,
To fermosa no gesto se mostrava,
Que as Estrelas e o Cu e o Ar vizinho
E tudo quanto a via, namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espritos vivos inspirava,
Com que os Plos gelados acendia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria.

35
E, por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e cara,
Se lhe apresenta assi como ao Troiano,
Na selva, Ideia j se apresentara.
Se a vira o caador que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na gua clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.

36
Os crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo que a neve escurecia;
Andando, as lcteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava e no se via;
Da alva petrina flamas lhe saam,
Onde o Minino as almas acendia.
Polas lisas colunas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

37
Cum delgado cendal as partes cobre
De quem vergonha natural reparo;
Porm nem tudo esconde nem descobre
O vu, dos roxos lrios pouco avaro;
Mas, pera que o desejo acenda e dobre,
Lhe pe diante aquele objecto raro.
J se sentem no Cu, por toda a parte,
Cimes em Vulcano, amor em Marte.

38
E, mostrando no anglico sembrante
Co riso ũa tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
E se torna entre alegre magoada,
Destarte a Deusa, a quem nehũa iguala,
Mais mimosa que triste, ao Padre fala:

39
— «Sempre eu cuidei, Padre poderoso,
Que, pera as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afbil e amoroso,
Posto que a algum contrairo lhe pesasse;
Mas, pois que contra mi te vejo iroso,
Sem que to merecesse nem te errasse,
Faa-se como Baco determina;
Assentarei, enfim, que fui mofina.

40
«Este povo, que meu, por quem derramo
As lgrimas que em vo cadas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo,
Por ele a ti rogando, choro e bramo,
E contra minha dita, enfim, pelejo.
Ora pois, porque o amo, mal tratado,
Quero-lhe querer mal, ser guardado.

41
«Mas moura enfim, nas mos das brutas gentes,
Que pois eu fui... » E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lgrimas ardentes,
Como co orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e gro Tonante.

42
E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co vulto alegre, qual, do Cu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
s lgrimas lhe alimpa, e, acendido,
Na face a beija, e abraa o colo puro;
De modo que dali, se s se achara,
Outro novo Cupido se gerara.

43
E, co seu apertando o rosto amado,
Que os saluos e lgrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,
Por lhe pr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos Fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira, enfim, lhe est dizendo:

44
«Fermosa filha minha, no temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ningum comigo possa mais
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
H-de fazer nas partes do Oriente.

45
«Que, se o facundo Ulisses escapou
De ser na Oggia Ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilricos e a fonte de Timavo,
E se o piadoso Eneias navegou
De Cila e de Carbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo iro mostrando.

46
«Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacssimos e duros
Deles sempre vereis desbaratados.
Os Reis da ndia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados,
E por eles, de tudo enfim senhores,
Sero dadas na Terra leis milhores.

47
«Vereis este, que agora, pressuroso,
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno, de medroso,
Sem vento suas guas encrespando.
caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Gente forte e de altos pensamentos,
Que tambm dela ho medo os Elementos!

48
«Vereis a terra, que a gua lhe tolhia,
Que inda h-de ser um porto mui decente,
Em que vo descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa, enfim, que agora urdia
O mortfero engano, obediente
Lhe pagar tributos, conhecendo
No poder resistir ao Luso horrendo.

49
«E vereis o Mar Roxo, to famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado;
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado;
Que quem vai contra os vossos, claros veja
Que, se resiste, contra si peleja.

50
«Vereis a inexpugnbil Dio forte
Que dous cercos ter, dos vossos sendo.
Ali se mostrar seu preo e sorte,
Feitos de armas grandssimos fazendo;
Envejoso vereis o gro Mavorte
Do peito Lusitano, fero e horrendo.
Do Mouro ali vero que a voz extrema
Do falso Mahamede ao Cu blasfema.

51
«Goa vereis aos Mouros ser tomada,
A qual vir despois a ser senhora
De todo o Oriente, e sublimada
Cos triunfos da gente vencedora.
Ali, soberba, altiva e exalada,
Ao Gentio que os dolos adora,
Duro freio por, e a toda a terra
Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

52
«Vereis a fortaleza sustentar-se
De Cananor, com pouca fora e gente;
E vereis Calecu desbaratar-se,
Cidade populosa e to potente;
E vereis em Cochim assinalar-se
Tanto um peito soberbo e insolente,
Que ctara jamais cantou vitria
Que assi merea eterno nome e glria.

53
«Nunca com Marte instruto e furioso
Se viu ferver Leucate, quando Augusto
Nas civis ctias guerras, animoso,
O Capito venceu Romano injusto,
Que dos povos da Aurora e do famoso
Nilo e do Bactra Ctico e robusto
A vitria trazia e presa rica,
Preso da Egpcia linda e no pudica,

54
«Como vereis o mar fervendo aceso
Cos incndios dos vossos, pelejando,
Levando o Idololatra e o Mouro preso,
De naes diferentes triunfando;
E, sujeita a rica urea Quersoneso,
At o longinco China navegando
E as ilhas mais remotas do Oriente,
Ser-lhe- todo o Oceano obediente.

55
«De modo, filha minha, que de jeito
Amostraro esforo mais que humano,
Que nunca se ver to forte peito,
Do Gangtico mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas ao Estreito
Que mostrou o agravado Lusitano,
Posto que em todo o mundo, de afrontados,
Ressucitassem todos os passados.»

56
Como isto disse, manda o consagrado
Filho de Maia Terra, por que tenha
Um pacfico porto e sossegado,
Pera onde sem receio a frota venha;
E, pera que em Mombaa, aventurado,
O forte Capito se no detenha,
Lhe manda mais que em sonhos lhe mostrasse
A terra onde quieto repousasse.

57
J pelo ar o Cileneu voava;
Com as asas nos ps Terra dece;
Sua vara fatal na mo levava,
Com que os olhos cansados adormece.
Com esta, as tristes almas revocava
Do Inferno, e o vento lhe obedece.
Na cabea o galero costumado.
E destarte a Melinde foi chegado.

58
Consigo a Fama leva, por que diga
Do Lusitano o preo grande e raro,
Que o nome ilustre a um certo amor obriga,
E faz, a quem o tem, amado e caro.
Destarte vai fazendo a gente amiga
Co rumor famosssimo e perclaro.
J Melinde em desejos arde todo
De ver da gente forte o gesto e modo.

59
Dali pera Mombaa logo parte,
Aonde as naus estavam temerosas,
Pera que gente mande que se aparte
Da barra imiga e terras suspeitosas;
Porque mui pouco val esforo e arte
Contra infernais vontades enganosas;
Pouco val corao, astcia e siso,
Se l dos Cus no vem celeste aviso.

60
Meio caminho a noite tinha andado
E as Estrelas no Cu, co a luz alheia,
Tinham o largo Mundo alumiado;
E s co sono a gente se recreia.
O Capito ilustre, j cansado
De vigiar a noite, que arreceia,
Breve repouso anto aos olhos dava,
A outra gente a quartos vigiava;

61
Quando Mercrio em sonhos lhe aparece,
Dizendo: — «Fuge, fuge, Lusitano,
Da cilada que o Rei malvado tece,
Por te trazer ao fim e extremo dano!
Fuge, que o vento e o Cu te favorece;
Sereno o tempo tens e o Oceano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes seguro agasalhar-te!

62
«No tens aqui seno aparelhado
O hospcio que o cru Diomedes dava,
Fazendo ser manjar acostumado
De cavalos a gente que hospedava;
As aras de Busris infamado,
Onde os hspedes tristes imolava,
Ters certas aqui, se muito esperas.
Fuge das gentes prfidas e feras!

63
«Vai-te ao longo da costa discorrendo,
E outra terra achars de mais verdade,
L quase junto donde o Sol, ardendo,
Iguala o dia e noite em quantidade;
Ali tua frota alegre recebendo
Um Rei, com muitas obras de amizade,
Gasalhado seguro te daria
E, pera a ndia, certa e sbia guia.»

64
Isto Mercrio disse, e o sono leva
Ao Capito, que, com mui grande espanto,
Acorda, e v ferida a escura treva
De ũa sbita luz e raio santo.
E, vendo claro quanto lhe releva
No se deter na terra inqua tanto,
Com novo esprito ao mestre seu mandava
Que as velas desse ao vento que assoprava.

65
— «Dai velas (disse), dai ao largo vento,
Que o Cu nos favorece, e Deus o manda;
Que um mensageiro vi do claro Assento,
Que s em favor de nossos passos anda.»
Alevanta-se nisto o movimento
Dos marinheiros, de ũa e de outra banda;
Levam, gritando, as ncoras acima,
Mostrando a ruda fora que se estima.

66
Neste tempo que as ncoras levavam,
Na sombra escura os Mouros escondidos
Mansamente as amarras lhe cortavam,
Por serem, dando costa, destrudos;
Mas com vista de linces vigiavam
Os Portugueses, sempre apercebidos.
Eles, como acordados os sentiram,
Voando, e no remando, lhe fugiram.

67
Mas j as agudas proas apartando
Iam as vias hmidas de argento;
Assopra-lhe galerno o vento e brando,
Com suave e seguro movimento.
Nos perigos passados vo falando,
Que mal se perdero do pensamento
Os casos grandes, donde em tanto aperto
A vida em salvo escapa por acerto.

68
Tinha ũa volta dado o Sol ardente
E noutra comeava, quando viram
Ao longe dous navios, brandamente
Cos ventos navegando, que respiram.
Porque haviam de ser da Maura gente,
Pera eles arribando, as velas viram.
Um, de temor do mal que arreceava,
Por se salvar a gente costa dava.

69
No o outro que fica to manhoso,
Mas nas mos vai cair do Lusitano,
Sem o rigor de Marte furioso
E sem a fria horrenda de Vulcano;
Que, como fosse dbil e medroso
Da pouca gente o fraco peito humano,
No teve resistncia; e, se a tivera,
Mais dano, resistindo, recebera.

70
E como o Gama muito desejasse
Piloto pera a ndia, que buscava,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
Mas no lhe sucedeu como cuidava,
Que nenhum deles h que lhe ensinasse
A que parte dos cus a ndia estava;
Porm dizem-lhe todos que tem perto
Melinde, onde acharo piloto certo.

71
Louvam do Rei os Mouros a bondade,
Condio liberal, sincero peito,
Magnificncia grande e humanidade,
Com partes de grandssimo respeito.
O Capito o assela por verdade,
Porque j lho dissera deste jeito
O Cileneu em sonhos; e partia
Per onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

72
Era no tempo alegre, quando entrava
No roubador de Europa a luz Febeia,
Quando um e o outro corno lhe aquentava,
E Flora derramava o de Amalteia.
A memria do dia renovava
O pressuroso Sol, que o Cu rodeia,
Em que Aquele, a quem tudo est sujeito,
O selo ps a quanto tinha feito;

73
Quando chegava a frota quela parte,
Onde o Reino Melinde j se via,
De toldos adornada e leda de arte
Que bem mostra estimar o Santo dia.
Treme a bandeira, voa o estandarte,
A cor purprea ao longe aparecia;
Soam os atambores e pandeiros;
E assi entravam ledos e guerreiros.

74
Enche-se toda a praia Melindana
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira e mais humana,
Que toda a de outra terra atrs deixada.
Surge diante a frota Lusitana,
Pega no fundo a ncora pesada;
Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

75
O Rei, que j sabia da nobreza
Que tanto os Portugueses engrandece,
Tomarem o seu porto tanto preza,
Quanto a gente fortssima merece;
E com verdadeiro nimo e pureza,
Que os peitos generosos enobrece,
Lhe manda rogar muito que sassem,
Pera que de seus reinos se servissem.

76
So oferecimentos verdadeiros
E palavras sinceras, no dobradas,
As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
Que tanto mar e terras tm passadas.
Manda-lhe mais langeros carneiros
E galinhas domsticas cevadas,
Com as frutas que anto na terra havia;
E a vontade ddiva excedia.

77
Recebe o Capito alegremente
O mensageiro ledo e seu recado;
E logo manda ao Rei outro presente,
Que de longe trazia aparelhado:
Escarlata purprea, cor ardente,
O ramoso coral, fino e prezado,
Que debaxo das guas mole crece,
E, como fora delas, se endurece.

78
Manda mais um, na prtica elegante,
Que co Rei nobre as pazes concertasse
E que de no sair, naquele instante,
De suas naus em terra, o desculpasse.
Partido assi o embaixador prestante,
Como na terra ao Rei se apresentasse,
Com estilo que Palas lhe ensinava,
Estas palavras tais falando orava:

79
— «Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
Foi da suma Justia concedido
Refrear o soberbo povo duro,
No menos dele amado, que temido:
Como porto mui forte e mui seguro,
De todo o Oriente conhecido,
Te vimos a buscar, pera que achemos
Em ti o remdio certo que queremos.

80
«No somos roubadores, que, passando
Pelas fracas cidades descuidadas,
A ferro e a fogo as gentes vo matando,
Por roubar-lhe as fazendas cobiadas;
Mas, da soberba Europa navegando,
Imos buscando as terras apartadas
Da ndia, grande e rica, por mandado
De um Rei que temos, alto e sublimado.

81
«Que gerao to dura h i de gente,
Que brbaro costume e usana feia,
Que no vedem os portos to smente,
Mas inda o hospcio da deserta areia?
Que m teno, que peito em ns se sente,
Que de to pouca gente se arreceia?
Que, com laos armados, to fingidos,
Nos ordenassem ver-nos destrudos?

82
«Mas tu, em quem mui certo confiamos
Achar-se mais verdade, Rei benino,
E aquela certa ajuda em ti esperamos,
Que teve o perdido taco em Alcino,
A teu porto seguros navegamos,
Conduzidos do intrprete divino;
Que, pois a ti nos manda, est mui claro
Que s de peito sincero, humano e raro.

83
«E no cuides, Rei, que no sasse
O nosso Capito esclarecido
A ver-te ou a servir-te, porque visse
Ou suspeitasse em ti peito fingido;
Mas sabers que o fez, por que cumprisse
O regimento, em tudo obedecido,
De seu Rei, que lhe manda que no saia,
Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

84
«E, porque de vassalos o exerccio,
Que os membros tm, regidos da cabea,
No querers, pois tens de Rei o ofcio,
Que ningum a seu Rei desobedea;
Mas as mercs e o grande benefcio
Que ora acha em ti, promete que conhea
Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Enquanto os rios pera o mar correrem.»

85
Assi dizia; e todos juntamente,
Uns com outros em prtica falando,
Louvavam muito o estmago da gente
Que tantos cus e mares vai passando.
E o Rei ilustre, o peito obediente
Dos Portugueses na alma imaginando,
Tinha por valor grande e mui subido
O do Rei que to longe obedecido.

86
E, com risonha vista e ledo aspeito,
Responde ao embaixador, que tanto estima:
— «Toda a suspeita m tirai do peito,
Nenhum frio temor em vs se imprima,
Que vosso preo e obras so de jeito
Pera vos ter o mundo em muita estima;
E quem vos fez molesto tratamento
No pode ter subido pensamento.

87
«De no sair em terra toda a gente,
Por observar a usada preminncia,
Ainda que me pese estranhamente,
Em muito tenho a muita obedincia.
Mas, se lho o regimento no consente,
Nem eu consentirei que a excelncia
De peitos to leais em si desfaa,
S por que a meu desejo satisfaa.

88
«Porm, como a luz crstina chegada
Ao mundo for, em minhas almadias
Eu irei visitar a forte armada,
Que ver tanto desejo, h tantos dias;
E, se vier do mar desbaratada
Do furioso vento e longas vias,
Aqui ter de limpos pensamentos
Piloto, munies e mantimentos.»

89
Isto disse; e nas guas se escondia
O filho de Latona, e o mensageiro,
Co a embaixada, alegre se partia
Pera a frota no seu batel ligeiro.
Enchem-se os peitos todos de alegria,
Por terem o remdio verdadeiro
Pera acharem a terra que buscavam;
E assi ledos a noite festejavam.

90
No faltam ali os raios de artifcio,
Os trmulos cometas imitando;
Fazem os bombardeiros seu ofcio,
O cu, a terra e as ondas atroando.
Mostra-se dos Ciclopas o exerccio,
Nas bombas que de fogo esto queimando;
Outros, com vozes com que o cu feriam,
Instrumentos altssonos tangiam.

91
Respondem-lhe da terra juntamente,
Co raio volteando, com zunido;
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoura o p sulfreo escondido.
A grita se alevanta ao cu, da gente;
O mar se via em fogos acendido
E no menos a terra; e assi festeja
Um ao outro, maneira de peleja.

92
Mas j o Cu inquieto, revolvendo,
As gentes incitava a seu trabalho;
E j a me de Menon, a luz trazendo,
Ao sono longo punha certo atalho;
Iam-se as sombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra, em frio orvalho,
Quando o Rei Melindano se embarcava,
A ver a frota que no mar estava.

93
Viam-se em derredor ferver as praias,
Da gente, que a ver s concorre leda;
Luzem da fina prpura as cabaias,
Lustram os panos da tecida seda.
Em lugar de guerreiras azagaias
E do arco que os cornos arremeda
Da Lũa, trazem ramos de palmeira,
Dos que vencem, coroa verdadeira.

94
Um batel grande e largo, que toldado
Vinha de sedas de diversas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres de seu Reino e de senhores.
Vem de ricos vestidos adornado,
Segundo seus costumes e primores;
Na cabea, ũa fota guarnecida
De ouro, e de seda e de algodo tecida.

95
Cabaia de Damasco rico e dino,
Da Tria cor, entre eles estimada;
Um colar ao pescoo, de ouro fino,
Onde a matria da obra superada,
Cum resplandor reluze adamantino;
Na cinta a rica adaga, bem lavrada;
Nas alparcas dos ps, em fim de tudo,
Cobrem ouro e aljfar ao veludo.

96
Com um redondo emparo alto de seda,
Nũa alta e dourada hstia enxerido,
Um ministro solar quentura veda
Que no ofenda e queime o Rei subido.
Msica traz na proa, estranha e leda,
De spero som, horrssono ao ouvido,
De trombetas arcadas em redondo,
Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

97
No menos guarnecido, o Lusitano,
Nos seus batis, da frota se partia,
A receber no mar o Melindano,
Com lustrosa e honrada companhia.
Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Mas Francesa era a roupa que vestia,
De cetim da Adritica Veneza,
Carmesi, cor que a gente tanto preza,

98
De botes d’ ouro as mangas vm tomadas,
Onde o Sol, reluzindo, a vista cega;
As calas soldadescas, recamadas
Do metal que Fortuna a tantos nega;
E com pontas do mesmo, delicadas,
Os golpes do gibo ajunta e achega;
Ao Itlico modo a urea espada;
Pruma na gorra, um pouco declinada.

99
Nos de sua companhia se mostrava
Da tinta que d o mrice excelente
A vria cor, que os olhos alegrava,
E a maneira do trajo diferente.
Tal o fermoso esmalte se notava
Dos vestidos, olhados juntamente,
Qual aparece o arco rutilante
Da bela Ninfa, filha de Taumante.

100
Sonorosas trombetas incitavam
Os nimos alegres, ressoando;
Dos Mouros os batis o mar coalhavam,
Os toldos pelas guas arrojando;
As bombardas horrssonas bramavam,
Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
Amidam-se os brados acendidos,
Tapam com as mos os Mouros os ouvidos.

101
J no batel entrou do Capito
O Rei, que nos seus braos o levava;
Ele, co a cortesia que a razo
(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
Cũas mostras de espanto e admirao,
O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Como quem em mui grande estima tinha
Gente que de to longe ndia vinha.

102
E com grandes palavras lhe oferece
Tudo o que de seus reinos lhe cumprisse;
E que, se mantimento lhe falece,
Como se prprio fosse, lho pedisse.
Diz-lhe mais que, por fama, bem conhece
A gente Lusitana, sem que a visse;
Que j ouviu dizer que noutra terra
Com gente de sua Lei tivesse guerra;

103
E como por toda frica se soa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
Quando nela ganharam a coroa
Do Reino onde as Hespridas viveram;
E com muitas palavras apregoa
O menos que os de Luso mereceram
E o mais que pela fama o Rei sabia.
Mas desta sorte o Gama respondia:

104
— « tu, que, s, tiveste piedade,
Rei benigno, da gente Lusitana,
Que, com tanta misria e adversidade,
Dos mares exprimenta a fria insana:
Aquela alta e divina Eternidade
Que o Cu revolve e rege a gente humana,
Pois que de ti tais obras recebemos,
Te pague o que ns outros no podemos.

105
«Tu s, de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz, do mar profundo;
Em ti, dos ventos hrridos de Eolo
Refgio achamos, bom, fido e jocundo.
Enquanto apacentar o largo Plo
As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viver, com fama e glria
Vivero teus louvores em memria.»

106
Isto dizendo, os barcos vo remando
Pera a frota, que o Mouro ver deseja;
Vo as naus ũa e ũa rodeando,
Por que de todas tudo note e veja;
Mas pera o cu Vulcano fuzilando,
A frota co as bombardas o festeja
E as trombetas canoras lhe tangiam;
Cos anafis os Mouros respondiam.

107
Mas, despois de ser tudo j notado
Do generoso Mouro, que pasmava,
Ouvindo o instrumento inusitado,
Que tamanho terror em si mostrava,
Mandava estar quieto e ancorado
Na gua o batel ligeiro que os levava,
Por falar de vagar co forte Gama
Nas cousas de que tem notcia e fama.

108
Em prticas o Mouro diferentes
Se deleitava, perguntando agora
Pelas guerras famosas e excelentes
Co povo havidas que a Mafoma adora;
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hespria ltima, onde mora;
Agora, pelos povos seus vizinhos,
Agora, pelos hmidos caminhos.

109
— «Mas antes, valeroso Capito,
Nos conta (lhe dizia) diligente,
Da terra tua o clima e regio
Do mundo onde morais, distintamente;
E assi de vossa antiga gerao,
E o princpio do Reino to potente,
Cos sucessos das guerras do comeo,
Que, sem sab-las, sei que so de preo;

110
«E assi tambm nos conta dos rodeios
Longos em que te traz o Mar irado,
Vendo os costumes brbaros, alheios,
Que a nossa frica ruda tem criado.
Conta, que agora vm cos ureos freios
Os cavalos que o carro marchetado
Do novo Sol, da fria Aurora trazem;
O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

111
«E no menos co tempo se parece
O desejo de ouvir-te o que contares;
Que quem h que por fama no conhece
As obras Portuguesas singulares?
No tanto desviado resplandece
De ns o claro Sol, pera julgares
Que os Melindanos tm to rudo peito
Que no estimem muito um grande feito.

112
«Cometeram soberbos os Gigantes,
Com guerra v, o Olimpo claro e puro;
Tentou Perito e Teseu, de ignorantes,
O Reino de Pluto, horrendo e escuro.
Se houve feitos no mundo to possantes,
No menos trabalho ilustre e duro,
Quanto foi cometer Inferno e Cu,
Que outrem cometa a fria de Nereu.

113
«Queimou o sagrado templo de Diana,
Do sutil Tesifnio fabricado,
Horstrato, por ser da gente humana
Conhecido no mundo e nomeado.
Se tambm com tais obras nos engana
O desejo de um nome aventajado,
Mais razo h que queira eterna glria
Quem faz obras to dignas de memria.»

Luís Vaz de Camões
OS LUSíADAS
Canto II
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