Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão, 
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura 
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim, 
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau — 
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos — 
Necrose da alma, 
Apodrecimento dos sentidos. 
Tudo quanto tenho feito, conheço-o claramente: é nada. 
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes. 
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito. 
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa, 
Meu Éden agasalhando o chá nocturno, 
Minha colcha limpa de menino! 
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido. 
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter... 
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida. 
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões. 
Custa-me a respirar para sustentar a alma. 
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade. 
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel, 
A tua imortalidade presumida era o não teres vida. 
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente, 
Sem capotinho mas com fama, 
Sem dados mas com Deus — 
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina! 

9 - 3 - 1930

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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