Dormi. Sonhei. No informe labirinto
Que há entre o mundo e o nada me perdi.
Em bosques de mim mesmo me embebi,
Misto indeciso do que vejo e sinto.

‘Stagno incorpóreo. No infiel recinto
Leio o transtorno do que nunca li,
E o labirinto nunca ‘stá em si,
Nem há mundo no incerto e abstracto plinto.

Minha alma é um ser em que a verdade engana,
Memória da partida dos navios
Na praia que de espuma se engalana.

Não voltaram dos longes os sombrios
Barcos, e o luar mole deixa ver
A praia com a espuma a escurecer.


[7-7-1930]

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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