Meu ser sente o veloz
Coração a tardar...
Que Deus vai dar a voz?
Que luz vai começar?

Um suspiro cinzento
Cheio de ruídos mudos
Desce do firmamento

Quando a névoa apartada
Conceder a visão,
Que vai ser madrugada
Ou a Consumação?

Um profético frio
Gela minha alma ao fundo
Do meu ser fugidio

O silêncio é uma foz.
Quem é que vai falar?
Há um novo som no mar?

Se eu te pensar, tu serás meu,
Porque a alma é Deus, e Deus é tudo.

Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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