Nada é: o Caos dorme, e a Noite é muda.
Ambos são um, e o mundo é o que são
Quando a ilusão seu próprio ser transmuda
Em parecer que é ilusão.

Nada há; o Mundo fugiu e a Alma é queda.
Ambos são tudo, e o que há não é ninguém,
Porque o universo é um sonho que arremeda
O sonho que ele mesmo tem.

Nada está: o Ser falta e o Não-ser sobra.
Ambos são nada, e passa quanto há,
E tudo é como o rasto de um cobra —
A antiga, que diz: Nada está.

15 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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