O Sol, que dá nas ruas, não dá
No meu carinho.
Felicidade quando virá?
Por que caminho?

Horas e horas por fim são meses
De ansiado bem.
Eu penso em ti indecisas vezes,
E tu ninguém!

Não tenho barco para a outra margem,
Nem sei do rio
Ah! E envelheceu já tua imagem
E eu sinto frio.

Não me resigno, não me decido,
Choro querer...
Sempre eu! Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!

Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amanhã virá
Tornar-me triste por ser risonho,
E não ser já.

Inútil brisa roçando leve
Já morta flor,
Saudando a um bem que não se teve
Vácuo sem dor,

Triste se é triste, e de o ser não finda
Quando é conforto
Como a mãe louca que embala ainda
Um filho morto.

22 - 6 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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