Bem hajas melancolia!...
Envolve a harpa das dores
com teu crepe funeral.
Fora pérfida a alegria,
mentira inútil no rosto,
quando o peito vara o gume
d'infame e ervado punhal.
Nem o lívido desgosto
dum sorriso se irradia,
sem que o aspeito da desgraça
se transverta em ironia.
Vem, amiga! Tens doçuras
no teu fel; é d'ouro a taça
em que dás o teu veneno.
Voluntário, me condeno
a ser teu. Em ti, tristeza,
como num crisol de dores,
perde a alma a impureza
dos regalos sedutores.
É que a dor nos aproxima
da justiça omnipotente,
como quem envia acima,
ao trono da divindade,
os clamores da orfandade,
desamparada, indigente.

Mãe, eu era  'inda criança,
já te não vi: morta eras!
buscou-te amor, e esperança.
e o coração que me deras.
Com que fé eu te pedia
um carinho maternal,
Pois, na terra, eu não sabia
quanto um doce afago vale!
E eram mudas as estrelas,
mudo o altar e a solidão;
mas eu tinha imagens belas,
tão formosas... mais que elas,
no meu céu do coração.
Essas, sim, diziam muito,
em teu nome... Adivinhei
os prantos que tu choraste.
pelos prantos que chorei.
Delas soube o longo drama
da tua breve existência.
Vi que intensa fora a flama
que queimou tua inocência.

Vi o ecúleo  de tormentos,
que teus lábios malicentos
oscularam na agonia,
senti-lo pude, também,
sobre meus lábios, na hora
em que a morte se demora,
respeitando a dor de mãe.

Descei dos olhos meus, lágrimas tristes;
Se o árido infortúnio o pranto enxuga,
foi grande a angústia e a filial saudade
           que o pranto me esmolou.
Deixai-me ver, Senhor, a imagem dela,
que o sangue, derramado em seu caminho,
eu pude ainda ver, como um vestígio
           da mártir que passou.

Descei dos olhos meus, lágrimas tristes!
Perdi o amparo, o amor e o pão da alma;
deixei meu coração, livre, sem guia,
           os abismos sondar.
Nas horas lancinantes do remorso,
à beira de falais desfiladeiros,
pedi ao céu que a mão da mãe finada
           descesse a me salvar.

Descei dos olhos meus, lágrimas tristes!
Ferventes orações meus lábios mandem
ao trono do meu Deus, onde o martírio
           recebe galardão.
Meu anjo valedor, mãe. se me escutas,
se, espírito invisível, vens, no ermo,
o pranto abençoar do pobre filho,
           ai, dá-me um coração!

Descei dos olhos meus, lágrimas tristes!
Sem ti, pomba d'amor, não sei librar-me
nos espaços da fé, onde a virtude
exalça os voos seus.
Ai, dá-me um coração! Lava-lhe as nódoas,
desata-lhe as algemas, que o prendem
às baixezas da terra, que não pode
           servir o mundo e Deus!

 


In Ao Anoitecer da Vida
Camilo Castelo Branco
[BEM HAJAS MELANCOLIA!... ]
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