lua gelada osso branco sinalização nocturna da cidade
desolação de todos os quartos
ainda entesado olho-me no espelho da noite
envolve as enxárcias húmidas deste navio-cama
odores mornos de urina
o jornal onde acabo de ler uma infindável e confusa aventura de gatos
assassinos
levanto-me pela janela apercebo o mar
amanhece
como sempre acontece assim que pressinto o mar
tenho a cara manchada de sal
um gemido sobe cola-se ao espelho à pele do rosto
grito
penso que foi um grito a escorregar atrás doa andaimes
havia lama duma ponta à outra da cidade
Lulu la Balle contorcia-se num espasmo de néon metalizado
lama
havia lama quando o lisérgico astro se atreveu a descer à boca
cores de pêssegos vermelhos troncos de árvores azuis queimados sobre o
relvado
um centauro de fogo cobre os telhados com guinchos num derradeiro
apelo à chuva
eu sei
naquele instante ainda sem memória poderia iniciar a fuga
mas elaboro circuitos movo-me por entreportas
atravesso o escuro sono de aves petrificadas
o sonho dos dedos estende-se luminescente
e a noite enfurece-se onde escavo a pele imensa das cassiopeias
imemoriais subterrâneos do pesadelo paralelos corpos
ruídos de insectos marcando as horas
a casa expele vibrações de água cheira a metal enferrujado
desço pelo interior rugoso das paredes
a viagem devora-me
cega-me o brilho dos alicerces ainda sólidos da casa
ultrapasso-os por fim atinjo o lodo
as ardósias onde o cuspo dos deuses inscreveu a memória daquele que
foge
pressente-se já a pequenez do país submerso
quando atei a minha idade ao coração da terra era porque a morte se
aproximara
suicidei-me há muito se era isso que desejavam saber
enrolei-me nos fios eléctricos
comi as estrias dos discos para possuir em mim a música possível
depois mordi a mesa a caneta e os lápis
os objectos que me cercavam
conheço bem as suas consistências texturas e dimensões
irradio luz
naquela fotografia ainda podem ver o enigmático sorriso
o visco cor de sépia do rosto meigo em cima do musgo ensanguentado
e o lugar secreto onde ressoa a respiração dum outro corpo
toco com a ponta da língua as primeiras camadas de barro
ouço uma voz: lost in a labyrinth of future mystery
entro em estado de hibernação
a eternidade

o corpo habitua-se à velocidade dos minerais
acorda somente para vir beber o recente orvalho
abandono-me ao fulgor do teu olhar
desidrato a paisagem
o espelho agride a nossa desmedida inocência
as portas da casa fecharam-se
um reflexo de nácar perde-se em teus lábios adormecidos
o vinho está calcinado
nada bebemos nada comemos durante a viagem de regresso
as paredes enchem-se de imagens-memória que já não nos pertencem
cremalheira de espermas dispersos rios veneno dos espelhos
ascendendo à boca às coxas ao sexo THIS MONKEY
THIS MONKEY agarrado aos ombros speed felino da noite
ossos liquefeitos ave tolhida na fotocópia deste malviver
assim continuo a desejar países serenos lagos
suaves palavras gravadas no envelhecido estanho dos gestos
e conheci o imutável bolor do rectangular país
a histérica península
o buraco onde coalhou o pressagioso nevoeiro de Quibir
que país é este? Onde a espera definha noutra espera

gostaria de ter vislumbrado os guerreiros cobertos de ouro e peçonha
os comboios cujos nomes ainda hoje despertam a melancolia das tabernas
em Antuérpia
memória breve dalguma vida irrompendo dum pequeno gesto
segui o meu próprio corpo sem nunca o alcançar
vozes expulsas pelo medo repentinamente audíveis
mas tudo se perde definitivamente na inutilidade do grito
movimento-me de rastos no seio de ácidas galáxias
catedrais de loucura
pátios cercados por infindáveis muros
enxergo uma sereia e um pássaro de areia
primeira visão do deserto
o lume e a terra guardam essa precária respiração de corpo intocável
tornei-me nómada
ultrapassei os alicerces da casa e perdi-me na cidade

o sono não era aquilo que simulavas enquanto te sorvia
nem este rosto de vidro foi limpo pela chuva
as manhãs mantêm-se iguais e eu tudo esqueço propositadamente
no jardim espalhei flutuantes inscrições de algarismos
arquipélagos de ar prateado esboçam flores de enxofre
a casa desfaz-se no crepúsculo do último relógio
murcham as mãos e um corpo redondo povoa o quarto
fala baixinho conspira na fulguração dos nós da madeira
passo o tempo a ver murchar as flores nas jarras improvisadas do restau-
rante
adivinho o percurso das abelhas
e às vezes nasce uma paixão durante o sono
mas ignoro onde estou
esfregamos os corpos com morangos
o quarto é exíguo
semelhante àquele pedaço de papel onde escreveras: dedicated to the rites
of heroine and to J. Hébuterne
o quarto ficou mais vazio sem ti
na parede uma reprodução barata de La Grande Jatte e um tapete
motivos geométricos
eu tossia cada vez mais
a doença contaminava o corpo e tudo o que vivera comigo esfacelava-se
nas arestas dos dias
quando partiste comecei a gravar o que me evocava a tua passagem
os nomes das plantas os meses
as funções dos objectos os perfumes o vestuário
e tossia sangue para que os meus actos adquirissem transparência
a doença tinha a enormidade dum mar interior
mas apesar de tudo amava-te
e nunca vi coração tão forte como o teu
basta olhar o asfalto ferido das cidades
ou lamber-te para sentir a terra e o azedo que outros corpos esqueceram
no teu

o vento trazia-me o cio dos animais escondidos no valado
visíveis somente ao anoitecer
o tempo arde
alguém respira no medo comigo alguém telefona um destes dias
alguém caminha pela noite ingerindo venenos
alguém espera
perscruta o reflexo dum espelho que tudo engole e fascina
a terra abre-se
o jardim tem um aspecto desolado as ruas esfarelam-se
crescem cardos num sítio obscuro da memória
persigo-te
ouço estremecer o corpo sugado o esperma bebido o ar a dor
estou só
o coração mergulhado na sonolenta geleia das glicínias
de ti sobejou a perturbação fúnebre das violetas e o âmbar dos vinhos
o pavor das noites de ausência
amargas polpas em espiral âmago deste país
cruel músculo de oceânica solidão

os corredores da casa desenvolvem-se a partir duma porta
a paisagem transpira a sebo animal
mais além a cidade tem olhos injectados de cíclicos cometas
casas-cartilagem luz difusa braço de alcatrão tibetes ignorados
caminho em ti sem rumo
grito: que se libertem as índias da memória
ao arquipélagos de remoto ópio
os trópicos do meu sangue os líquenes inexplicáveis
a visão do início
as primitivas tribos de povos estelares as pragas de gafanhotos e de sífilis
a peste
que se revele no fundo de mim a peste

voltemos um instante ao quarto
avisto a costa atlântica
e na orla avermelhada das praias ergue-se a casa cercada de palmeiras
um pomar de piares roucos e frutos mecânicos
uma fera agoniza perto dos valados
é o susto
passos quebrando hastes podres estalar de folhas onde se escondem del-
gadas cobras
circulam sons quadrados formas circulares líquidas
vermes alados águas fosfatos larvas tímidas
matagais atapetados com dentes de feras
abro a porta para o espesso silêncio futuro
com os dedos imagino favos hexagonais
a luz contamina o sangue quando ofereço o corpo ao desvario das cidades
aquáticas
cidade larvar junto ao rio no fim dalgum sonho interrompido
cidade construída crime após crime um mar sobe
inunda o sonho e define o tempo que nos resta
o melhor pensei eu era tentar uma vez mais o regresso
uma viatura arrasta-se boceja pelo asfalto
o corpo treme
resíduos de cidade ruínas de chumbo
a janela da casa fecha mal
encostada ao mármore da mesa-de-cabeceira morre a fotografia
a escuridão não é só exterior
- Como te chamas?
- E tu?

fragrância de sémen marinho na boca
insone navegar
possuir-te neste cristal escondido no fundo duma eira do mar
- Piloto, olhai o que fazeis, que esta noite me faço com uns baixos.
- Ide mandar os grumetes ao convés, eu sei o que nisto faço
.
horas acesas que me roubas incríveis corpos elásticos
vozes enjoativas lancinante crepitar de luzes
vivo com os peixes das grandes profundidades
e há dias em que uma ave se me extravia nos ossos precipitando-me no
delírio
hoje recordo a chuva na bainha da floresta os animais são ali mais exactos
no calor dos corpos fundem minerais
a língua perturba-se na febre
de qualquer maneira nada existe dentro da casa que possa saciar as fomes
ou as sedes
a casa nunca existiu ou está completamente vazia
(o piloto não lhe dera orelhas)
havia luar e pouco vento à popa
o enfermeiro solúvel espetava a monstruosa agulha na veia
ilhas refloresciam ilhas no galope das artérias
o ar sabia a anis
nevava sobre a cama onde me ataram
o computador central  esperava atento a todos os meus gestos
por fim a nau deu esta pancada outra ainda mais forte
o computador registava os meus desejos

tocava-te e reconhecia-me
afinal não existia diferença entre o meu corpo e o seu reflexo
chamaram a esta coincidência loucura
será mesmo Lisboa? Eu sei
o Tibete encontra-se no quarto ao lado
e Lisboa?
sinto-me vazio de qualquer eco
já não há leme em mim nem âncora
e muito mal amainaram a vela grande
dizem que estou a enlouquecer
Como te chamas?
— E Tu?

o computador central continua a exigir-me uma memória
não quero perder-me  não me lembro de nada
por cima da cama esvoaçam frutos em forma de boca
embatem com estrondo nas arestas dos móveis
tamanho desmaio tinha vendo-se assim de noite no meio do mar
talvez estivesse tão próximo da morte que disso não dei conta
passei a noite com aqueles tragos de medo no peito
trémulo ficava atento aos percursos sinuosos das estrelas
outro tempo de ácido e preces surgia
e de tudo isto sobreviveu a paixão de arquivar ordenar
reler
continuar a escrever sobre o mesmo livro de maneiras diferentes
um dos tratamentos é o de enxertar plantas carnívoras nos órgãos respi-
ratórios
extrair o cérebro substituindo-o por um simples aquário vazio

- Não achas que os saltimbancos são os verdadeiros anjos?
- Na verdade, os outros, os anjos dos quadros antigos são bonitinhos mas não nos         ligam nenhuma.
- Disseram-me que o arsénico é um excremento do Céu. O Vómito de Deus.
- Eu não ligo muito a essas coisas, sabe, só os cães vomitam e tornam a comer
o que vomitaram.
- É mesmo… a vida é um nenúfar doente.
- Um deserto queres tu dizer.

procuro-te obsessivamente na melancolia das mãos
porque só o acto de morrer muitas vezes compensa
e foi necessário que fizéssemos uma serra para cortar os pulsos
de uma espada e fizemos
e com uma cana-da-índia de rota fizemos uns foles para atear o fogo
pintei nos ombros umas asas de coral para me evadir
abandonei a casa e as notas rabiscadas rapidamente
as emendas as manchas de tinta azulada nos dedos
os manuscritos ilegíveis
a poeira dum olhar preso ao vício feliz das palavras
a escrita
a indelével respiração do poema
o fluxo do grito o eco lacustre dos dedos tamborilando no sono
a casa vazia
e a janela onde debrucei o que me restava da vida
levei dez dias de viagem
até que a noite me recebeu como um ressurgido do outro lado do corpo
e nada direi sobre o deserto
nem deixarei sequer um inédito

eis o espólio:
um papel embrulhando um pedaço de sabonete
uns óculos de sol
dois lenços sujos de esperma
uma nota de cem escudos com uma morada escrita
um berlinde
duas canetas de tinta permanente
cinco lâminas de barbear
uma página de livro rasgada
uma faca
um bilhete postal.


In O Medo
Al Berto
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