Cuidas, ínvio, que cumpres, apertando
Teus infecundos, trabalhosos dias
    Em feixes de hirta lenha,
    Sem ilusão a vida.
A tua lenha é só peso que levas
Para onde não tens fogo que te aqueça,
    Nem sofrem peso aos ombros
    As sombras que seremos.
Para folgar não folgas; e, se legas,
Antes legues o exemplo, que riquezas,
    De como a vida basta
    Curta, nem também dura.
Pouco usamos do pouco que mal temos. 
A obra cansa, o ouro não é nosso.
    De nós a mesma fama
    Ri-se, que a não veremos
Quando, acabados pelas Parcas, formos,
Vultos solenes, de repente antigos,
    E cada vez mais sombras,
    Ao encontro fatal —
O barco escuro no soturno rio,
E os novos abraços da frieza stígia
    E o regaço insaciável
    Da pátria de Plutão.

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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