Por usar costume antigo,
sade mandar quisera
(e mandara, se tivera);
mas Amor dela imigo
pois me deu, em lugar dela,
saudade em que ando,
saudades cem mil mando,
e no ficando sem ela.

Se isto no fiz ds que vim,
no me queirais condenar,
que no tive ainda lugar
para tomar sobre mim.
Perdo merece esta culpa
que, alm de ser pequena,
la causa que me condena
me serve de desculpa.

Mandar-vos novas quisera
desta terra e mais de mim,
se novas houvera aqui
boas, que mandar pudera;
mas quem tal enfadamento
qual vai contar pretende,
no o sente ou no entende
onde chega seu tormento.

Contudo, o que passa c
contarei como souber;
se algum nojo vos der,
a teno me salvar.
Se falar desconcertado,
deveis-me de perdoar;
que no estoi para llorar,
sino para ser llorado.

Melhor fora ter caladas
as novas que h nesta terra,
pois aonde vim buscar guerra
somente achei badaladas.
Assim estou to enfadado
que digo, em dias to raros,
que diera por no allaros
la gloria de os aver allado.

Porque tal o desconcerto,
que caminho j no leva;
nem menos h quem se atreva
a dar um conselho certo.
A tudo h conselho c:
quem escapa e no fere,
triste del triste que muere
si al paraiso no va.

A gente pior em dobro,
as vergonhas so perdidas;
falam das alheias vidas
e pem as suas em cobro.
Poucos ho medo vergonha,
e a mui poucos se h-de ouvir;
«Mais vale morrer com honra
que desonrado bivir».

No h conversao como dantes,
porque h mister cem mil tentos
com moradores praguentos
e fronteiros mais galantes.
Toda a terra anda ao revs
tanto que j comea
los pies sobre la cabea
la cabea sobre los pies.

Neste desconcerto tal,
se quereis saber qual ando:
passo a vida suspirando
pela causa do meu mal.
Assim me traz meu tormento
pelo ver to perigoso
de mi remedio dudoso,
mas no de mi perdimiento.

Porque de males rodeado
e sem remdio me vejo;
e juntamente o desejo
me acaba, e o cuidado.
E to mal me vai tratando
este mal, segundo vejo,
si no muere este desejo,
morir yo deseando.

O mor mal que c padeo
ver quanto sem razo
outras olhos lograro
o que eu por amor mereo;
isto tanto me entristece
que, depois que estou aqui,
plazer no sabe de mi,
cuidado no me falece.

Nenhum remdio a meus danos
vejo por alguma via,
seno vendo aquele dia
que h-de ser fim de dois anos.
Mas tem meu mal tal graveza
que, depois de me l ver,
j no llegar el plazer
ad lleg la tristeza.

Dar-vos esta carta tal
no fora de razo,
pois eu sei que em vossa mo
est meu bem e meu mal.
Y pues s que muerto soy
si de tu mano me dexas,
a quien contar mis quexas
si a ti no?

Dai-me o favor sem pejo,
pois o dais a cousa vossa;
no queirais vs que no possa.
servir-vos como desejo.
Ao menos se sou perdido
no me deis o desengano,
que j no es en mi mano
el querer no ser querido.

Com isto e o mais que calo,
julgai qual minha vida anda:
saudade de uma banda,
d'outra tento ao badalo.
Quando me contemplo tal,
chegando a to tristes dias,
las tristes lagrimas mias
en piedra hazen señal.

Pudera eu viver contente
como saber que estava tal
a que causa de meu mal,
por me no ter l presente.
Mas por quo mal lhe merece
meu amor to mal tratar-me,
quando mas pienso alegrarme
maior pacion me recrece.

Viver sempre arreceoso,
que bem pode ter comigo?
Onde est certo o perigo
e o remdio duvidoso;
assim eu de ter perdida
esperana de contente,
ando perdido entre a gente,
no morro nem tenho vida.

No viver vontade
vestir e andar como quero,
donde do bem desespero
e me mata a saudade.
Se isto no vos desengana,
j ouvireis vs dizer:
«El hombre queremos ver
que los panos son de lana».

Da guerra novas mais certas
brevemente so contadas:
no vero, portas fechadas,
no inverno, pouco abertas.
Qualquer Mouro desmandado
nos comete sem nenhum pejo;
e aquele postigo vejo
que sempre esteve fechado.

Isto no praguejar;
mas toda a culpa da fome,
porque gente que no come
mal poder pelejar.
Assim esto muitos no dia
com os olhos na tramontana,
mirando la mar d'España
como menguava e crecia.

Tudo so queixas em vo
e tudo so vos clamores:
Capito dos moradores,
eles contra o Capito.
Enfim, tal vai tudo aqui
que brada grande e pequeno:
«Tiempo bueno, tiempo bueno,
quien se te llev daqui?»

O mesmo digo eu tambm,
porque o mal que eu l passava
com ver a quem mo causava
se me convertia em bem.
E por isso perdoai-me
se eu brado noite e dia:
«Naves de la tierra mia,
venid ora e llevadme».

Gabais esta vida c,
e desgabais-me Lisboa.
Eu dera esta vida boa
a troco dess'outra m.
Quem de estar l se queixar,
meu desejo lhe responde:
Mas de ns, Conde,
que manzilla ni pesar.

Porm, enquanto no vejo
o dia das alabanas,
lembre-vos que as esperanas
pus em vs de meu desejo.
Entretanto meu tormento
sofrerei sem me queixar,
pues que sufrir e callar
conviene a mi pensamiento.

Luís Vaz de Camões
[POR USAR COSTUME ANTIGO]
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