Amante pensamento,
Nncio de amor, correio da vontade,
Emulao do vento,
Lisonja da mais triste soledade,
Ministro da lembrana,
Gosto na posse, alvio na esperana,

J que de minhas queixas
A causa idolatrada vs seguindo,
Diz-lhe qual me deixas:
Diz-lhe que estou morta, mas sentindo,
Que pode mal to forte
Fazer que sinta (ai triste!) a mesma morte.

Diz-lhe que j tanto
O pesar de me ver to dividida,
Que s me causa espanto
A sombra que me segue de a vida
To morta para o gosto
Como via (ai de mi!) para o desgosto.

Diz-lhe que me mata
Quem, vendo-me morrer sem resistncia,
De socorrer-me trata,
Pois para quem padece o mal de ausncia
Que s remdio entendo
Ver o que quer ou fenecer querendo.

Diz-lhe que a memria
Toma por instrumento do meu dano
A j passada glria,
Fazendo o mais suave to tirano,
Que o bem mais estimado
Me passa o corao, porque passado.

Diz-lhe que se sabe
O poder de a ausncia rigorosa,
Que a que comea acabe
Antes que ela me acabe poderosa,
Pois de tal modo a sinto,
Que julgo ter por eterno o mais sucinto.

Diz-lhe que se admite
Rogos de um corao que o segue amante,
Que ver-me solicite
Apesar do preciso e do distante,
E que to cedo seja
Que toda a compaixo se torne inveja.

Diz-lhe que se acorde
De uns efeitos de amor que encarecia,
E que todos recorde,
Mas que seja um minuto cada dia,
Pois eu cada minuto
Infinitas lembranas lhe tributo.

Diz-lhe que at morte
Assistncia contnua lhe ofereces,
E que te invejo a sorte;
E enfim, se de meu mal te compadeces,
pensamento amigo,
Diz-lhe tudo, ou leva-me contigo.

Soror Violante do Céu
CANçãO
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