O céu ‘stá lúcido e tranquilo,
Reflecte a terra esse sossego,
Mas ante essa beleza
Sou estrangeiro como um cego
Inutilmente diante daquilo..

Inutilmente... Inutilmente...
Falta-me o que me ligue à vida
E a faça inda em mim sentida...
Minha alma é sob um céu silente
E negro, negra nau perdida...

Nem a mim próprio em mim me vejo
Sinto-me um lugar de uma dor...
Ondeando entre  e desejo
Inquietamente num torpor...

Perdi a vida natural
E o senso vão da vida humana
Nem esse eu entre-achei; irreal
Senti-me ante a alegria e gana
Com que o homem é humano e vale.

No pensamento, último porto,
Só achei ruínas

A própria água em que flutuo
— Folha caída — e’ um lago morto...

Não posso crer que há um destino
Que possa ser na vida o meu...
Ateu no próprio ardor divino
A meio de cantar meu hino
‘Sfrio e duvido do meu céu.

A própria morte se afigura
Ao meu  coração
Não sei que cousa  escura
Que a  procura
Sem ver se é mais que a escuridão...

Porém, nesta hora bela e alheia
Ao que a possa sentir em mim
Quisera a morte por sereia...
Cantava, e eu ia, sem ideia,
Para a ilusão de ter um fim.

Eu nem sequer em pensamento
Nem mesmo em sonho e intenção
Acabo os poemas que medito...
Sou escombros de mim próprio... Habito
As ruínas do meu  intento
Doido descrendo da ilusão.

 

Homem ao mar! Homem ao mar!
Ninguém ouviu! O céu sem fim
Vê o corpo negro a perturbar
O azul da núbil solidão...
Homem ao mar, mas dentro em mim

 

 espaço deixado em branco pelo autor

30 - 10 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar