A noite é escura, e a cidade alheia
Arfa em torno de mim sem me dar nada.
Erro, e o que sou não tem nenhuma ideia;
Nem penso; sigo por nenhuma estrada.

Outrora fui… mas já não sei de mim
Qualquer cousa com fulcro e vida antiga.
Na sombra do meu ser, 'strada sem fim,
Passa minha vontade, uma mendiga.

Não tenho consciência ou intenção,
Não sou quem sou tanto que o gesto o diga.

20 - 10 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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