O regedor de Pardelhas
Punha o chapéu às avessas.
Nunca foram a Pardelhas?
É um sítio singular:
Há casas para morar,
Lavam a roupa em celhas
E comem a mastigar.

E apesar disso, apesar
De essas coisas serem essas,
O regedor de Pardelhas
Punha o chapéu às avessas.

Ninguém soube, ninguém sabe
Porque ele o usava assim.
Pode ser que o mundo acabe
Amanhã: será o fim.
Mas nem então, nessas pressas
De o mundo cair nas celhas
Onde, onde já se vê,
Qualquer pessoa se gabe
De em vida saber porque é
Que o regedor de Pardelhas
Punha o chapéu às avessas.


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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