As horas de que eu tenho pena
São as que nunca viverei.
Astro, ‘standarte, azul, falena,
Manto de rei,

Miséria do lacónico auge,
Quando a ânsia foi grande e sangue.
Palácio fauce de leão langue.
A cascata de leve estruge

E entre áleas ou coberta a séries
De prantos por interromper,
Diverge a astros o dizeres
Que é certo morrer.

Por isso sonho alado, gala
Da tarde atónita e macia,
O rastro saqueou e opala
Sequência fria.

31 - 5 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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