Paisagens, quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis de sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...

Paisagens, todas pintadas
Umas pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas…
Paisagens… Recordações,  
Porque até o que se vê 
Com primeiras impressões 
Algures foi o que é,  
No ciclo das sensações. 

Paisagens… Enfim, o teor 
Da que está aqui é a rua 
Onde ao sol bom do torpor 
Que na alma se me insinua 
Não vejo nada melhor.

8 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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