Sinto uma raiva — sim, uma raiva! —
Do tempo que passa sem se deter,
Sede de vida que nada acalma,
          Um ódio que nada pode reter.
E cada hora que sinto passar
          E funde a noite como um novo dia
Faz, de pensá-lo, a alma clamar:
«Tortura eterna, tortura sem fim!
          Os dias passam e nem uma acção!
          Um forte desejo, como uma cobiça
Da vontade ausente — Oh, desolação! —
Um sonho dorido, condenado em mim!»

          Sinto uma raiva! Raiva por sentir
Tristeza e mistério, em confusão,
          Até que a mente num redopiar,
Louca, contempla essa maldição
Descarnada, que é o mundo a passar,
Como ante um crime fica um paralítico
Sem ter o poder para o evitar.
Diante do sol, eu sinto estranheza,
          Frente ao rio, aos campos, fico angustiado,
          Sinto-me um cínico ante a baixeza
          E, perante Deus, um revoltado.

 

 

1907

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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