Somos a alegria o corpo o sal da terra
o sol das manhãs férteis a música do outono
a própria essência do amor a força das marés
somos o tempo em marcha


Esta é a única verdade
sabemos que vos é difícil aceitá-la
envoltos como estais em suborno e usura
bancos alta finança empréstimos externos
E no entanto esta manhã um pássaro
pousou à vossa beira embora
inutilmente


A pequena dactilógrafa matou-se
nós sabemos porquê


Um carpinteiro desempregado rasgou a roupa
e saiu cantando para a rua
nós sabemos porquê


Uma noite
a jovem costureira não voltou para casa
nós sabemos porquê


Um poeta
roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro
nós sabemos porquê


Nós sabemos porquê


NÓS SABEMOS PORQUÊ


E no entanto é doce dizer pátria
sonhar a terra livre e insubmissa
inteiramente nossa
Sonhá-la como se pedra a pedra construíssemos  Como
se nada houvesse antes de nós
e desde as fundações a erguêssemos completa
pura alegre acolhedora virgem
de medos mortos insepultos


Regresso pelo tempo ao dia de hoje
primeiro de Maio de 1962
hora segunda da meditação.


In Pátria Lugar de Exílio
Daniel Filipe
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