Rondam às vezes o meu espírito desprevenido
Vagas presenças, visíveis algumas, outras que eu ouço,
Vagos rostos desconhecidos,
Vozes várias dizendo frases imperfeitas,
Outras sem relação com a minha relação com a vida.
Não estão em meus sonhos,
E não são do mundo…
São, não sei como, intermédios,
São mais visíveis que as figuras de sonho
E menos reais que as figuras do mundo.
Habitam o entorno
Do meu espírito localizado no meu corpo,
E quando os vejo vejo-os como se os visse na vida
Mas como se fossem sonho.
E quando os ouço, ouço-lhes as vozes vindas de fora
Mas dentro de mim.
Sei que o não sonho
Porque os não quero,
Sei que os não encontro no mundo
Porque são mais segredos para mim
Que as figuras da vida.

Flutua, mal demora
O momento em que os vejo.
Não acabam a frase
Que os ouço pronunciar...
Sua presença passa pelo meu ser
Numa direcção diversa da da realidade
Rectangularmente a todas as dimensões do mundo.

Transparecem, começam
Onde tudo acaba
Não na circunferência mas no centro...
Não sei onde estou
Quando eles me aparecem...
Não sei com que olhos vejo,
Ou com que ouvidos ouço
Seus rostos e suas vozes

Que não vejo, mas vejo,
Que não ouço, mas ouço,
Que não sonho mas sonho,
Que não sou eu, nem outro...

Quando acendo as luzes,
Eles continuam no mesmo sonho;
Quando apago as luzes,
Eles prosseguem na mesma luz;
Quando me volto vejo-os
No mesmo lugar onde estavam...
Quando os não quero ver
Vejo-os da mesma maneira...

Tenho a alma neste espaço
Além de neste espaço
Do mundo.
Tenho sentidos feitos
Com a matéria deste
Com a noção de ver,
Com o conceito de ouvir...
Mas não ver, nem ouvir
Mas outra cousa a mesma
Em outros planos.

O muro à roda de compreender
Torna-se transparente
Quando essas sombras vêm,
Mas não para além do muro,
Nem aquém dele.
Interseccionam-se, não com ele,
Mas com ele existir...
Corto-o em diagonal
Sem que ele tenha nada
De ser cortado em diagonal...

Sobe pela descida abaixo
De eu ser contemplado,
Da minha atenção posta
Em ângulos de mim.

Tudo é um lago em mim
De uma terra sem posição
Mesmo de cercar um lago...
E todo o mundo não está
Só como que reflectido
À superfície das águas
Do lago calado...
Só ali... Mais abaixo
Já outra cousa diferente...
Acima — não há o nada
Ou seu reflexo nas águas

Não cabe noite, nem há dia
Em tudo isto...
Não há além do lado de cá
Nem exterior do lado de lá...
Fora e dentro é o mesmo
E absolutamente diferente.
Tudo é um intermédio
De cousa nenhuma
Tudo consiste em não consistir.
Eu começo onde acabo
E Deus está de permeio.

17 - 10 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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