Vendo-me sem alegria 
Perguntou mãe Natureza: 
«Mas o que desejas tu? 
Donde vem tua tristeza? 
Nessa fronte, qual a dor? 
Diz-me o que tanto desejas.» 

— «P’ra mo dar não tens poder. 
Algo mais belo que o amor, 
Mais azul que toda a altura, 
Mais verdadeiro que a verdade; 
Algo mais que a sepultura 
E que tem raiz no ser, 
Algo que nem beijo de amante 
Ou de mãe pode trocar. 
Mas, sonhando, vou poluir 
O seu fim com meu sonhar.» 

No silencio absoluto 
De minh’alma ouço-a dizer: 

«Amor só me faz chorar, 
A glória é só mero anseio. 
Dá-me o mundo p’ra guardar 
E, inda assim, nada é meu.» 

- «Mas o que sentes então?» 
- «Primeiro, esp’rança e angústia, 
Depois, angústia, aflição. 
Oh, um desejo, uma sede 
De minh’alma ultrapassar, 
Da consciência romper, 
Não sei como, as asas ter 
Da lua e nelas voar 
P’ra lá dos muros do sofrer. 
Erguendo um voo mais ousado, 
Além da noite, elevado, 
Subir mais alto que o ar 
Onde as águias vão voar. 

Algo mais perto de mim 
Que meu corpo; e, mais do que eu, 
Esse Algo belo ser meu. 
Algo (como dizê-lo assim?) 
Mais junto a mim na essência 
Do que a minha consciência. 
Isto é esse Algo que anseio. 
Está além do longe ausente, 
Mas de mim (quem o diria?) 
Mais perto que a minha mente, 
Mais rente a mim que este dia.» 


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
« Voltar