Aqui, meu amigo, é como aí,
No mundo é igual todo o lugar
Se em sombria dor a vida se passa,
O que pode mudar o teu destino,
O que pode, da alma, a dor afastar?

Quando a dor fere o coração cansado
E a angústia esgota o olhar febril,
O mundo, em sua arte, pode dar
Uma alegria à alma sofredora —
Mas não é esta alegria mero ardil?

Quando fico em meu leito de inquietude
A contar de meu peito o batimento,
Vejo alegres céu e terra; no entanto
Odeio tudo; por que não desviar
Da morte o cobarde pensamento?

De fora não nos vem, vera a alegria
Pois no fundo da alma está dormente.
Que importa se o sol acaso brilha
E se os astros dão à noite luz suave,
Quando nos corações a dor premente?

Pois quando no pensar o escuro pesa
E sobre a tua alma a noite desce,
Não regressam de novo os teus pesares?
Não fica a tua alma presa às sombras?
Não sentes em ti que o medo cresce?

Nada mais me resta que ter esp’rança;
Como eu, tua mente espera em ti;
Eu no meu país e tu no teu
Ambos sofremos — nossa dor se cruza.
Aqui meu amigo, é como aí.

1904

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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