Eu vivia de lgrimas isento,
num engano to doce e deleitoso
que, em que outro amante fosse mais ditoso,
no valiam mil glrias um tormento.

Vendo-me possuir tal pensamento,
de nenhũa riqueza era envejoso;
vivia bem, de nada receoso,
com doce amor e doce sentimento.

Cobiosa, a Fortuna me tirou
deste meu to contente e alegre estado,
e passou-se este bem, que nunca fora;

em troco do qual bem s me deixou
lembranas, que me matam cada hora,
trazendo-me memria o bem passado.

Luís Vaz de Camões
[EU VIVIA DE LÁGRIMAS ISENTO]
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