Antes que o sono afunde
Minha alma em más visões
E em seu abismo a inunde
De falsas confusões,

Com quanto ainda em mim vive,
Enquanto o sono espero,
Relembro o bem que tive
E sonho o bem que quero.
 
Então, porque sonhada
Te tive, e sonho ainda,
Como saudade és dada,
E como sonho és linda.

Até que, vindo a aragem
Invito como a vida,
Teu ser se perde e eu sonho
Outra cousa indevida

E é um fim
Natural e sem arte:
Como flor que se fana,
Ou taça que se parte.

15 - 12 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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