Eu quero, ó Vida, que tu acabes
      Sem eu acabar…
Há uma ilha verde, meu amor, sabes,
      Lá ao fim do mar…

De ali nos vemos passar as velas
      Como esquecendo
E as mãos não sabem já das capelas
      Que estão tecendo…

Ali as sombras onde ardem sós
      Dourados pomos,
E a voz do mar sempre chora em nós
      O que nós não fomos.

Aquilo que era os gnomos e as fadas
      Já em nós não há…
Todas as princesas de todas as baladas
      Morreram já…

Cruza os teus braços sobre o teu seio,
      Esquece-me e vê
Só a ilha verde sorrindo ao meio
      Desse mar, que é

Todos os sonhos e todas as mágoas
      Sem que haja a vida…
Ah, a ilha verde sorrindo às águas…
      E o sonho e a ida…

21 - 12 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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