Vivo das lágrimas que lembro.
Vivo daquilo que perdi.
Era manhã, era dezembro...
Tu ias morta, e eu não senti;
Era criança, não senti.

Hoje relembro, hoje relembro
Como tu antes nunca vi.
Finjo, imagino, ou só relembro
Esse amor onde não vivi?
Sei que — tão longe estás!
E lembro e amo; morta, ali —
Era manhã, era dezembro.

Voou longe quanto houve de ti.
Era manhã, era dezembro.
Mas só hoje é que te perdi.

2 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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