Quando me senti parar, 
Tinha na boca 
Um sorriso 
E uma cano. 

Ento, 
No me era ainda preciso 
Pintar de carmim a boca, 
Pr alvaiade na cara, 
E sorrir, e disfarar... 

Quando me senti parar, 

— Sorria naturalmente, 
Por uma necessidade; 
E tinha a boca vermelha 
De sangue quente 
E de mocidade! 

Ante mim, 
Desdobravam-se at ao infinito 
As plancies desertas, 
O azul sem fim, 
As amplides suspensas 
Como bocas abertas, 
Os pinheirais melanclicos, 
As serras longe na bruma, 
Os areais descampados 
Por onde o vento rola e joga a espuma, 
E o mar todo arquejante de soluos abafados, 
O mar, — Atlas sem fim que tem a mo de Deus em cima! 

Em tudo 
Se adivinhava passar 
O Verbo mudo, 
O Sopro que tudo anima! 

— Quando me senti parar... 

Na minha boca, 
Inda o sorriso brincava 
E a cano continuava. 

cano que se perdeu, 
Quem pudera repeti-la...! 

E, desvairados, 
Os meus olhos cresciam, dilatados 
No sonho de abranger a terra e o cu 
Na gota duma pupila! 

Num segundo, ultrapassei 
A minha condenao. 

E quis seguir... 
Mas em vo! 
J nem seguir, nem sorrir: 

O cho 
Alua, a pouco e pouco, 
Debaixo dos meus ps nus. 
Um grito rouco 
Rasgou a minha cano: 
Jesus...! 
E, como um pano molhado, 
Senti colar-se-me s fontes 
Suor gelado. 

Berrei, doido de aflio. 

Tremia todo... 
E ainda sem poder crer, 
Procurei, de repelo, 
Arrancar-me a esse lodo. 

Com que ironia, 
Molemente, molemente, 
Quanto mais eu me torcia, 
Mais esse lodo alua, 
— Sob os meus ps alua!... 

Compreendi: 

Aquele cho subir-me-ia 
At aos flancos doridos; 
Pesar-me-ia 
Em cima do corao; 
Com os ltimos gemidos, 
Sufocar-me-ia 
A ltima pu1sao;

Atapulhar-me-ia a boca 
At eu arroxear; 
E, nos meus olhos de pupila louca, 
Enterraria o derradeiro olhar! 

— Era uma vez um homem submergido... 

E, perdido, 
Chorei, 
Bradei, 
Supliquei, 
Descompus-me, 
Lacerei-me, 
Deitei as mos aos cabelos, 
Cravei as unhas na cara, 
Ferrei os dentes nos beios, 
Mordi nas mos, 
Gemi como um inocente, 
Ululei como uma fera... 

...Molemente, 

Quanto mais eu me torcia, 
Mais esse lodo alua... 

Que linda noite descera!... 

Ante mim, 
As plancies desertas, 
O cu sem fim, 
As amplides suspensas 
Como bocas abertas, 
Os areais, 
O mar, 
As serras, 
Os pinhais, 
Adormeciam, pouco a pouco, em beatitude. 

Tudo tinha virtude... 

Um luar frouxo, 
Bao, 
Escorria dos cus como perfume, 
Ascendia da terra como incenso. 

Na linha do horizonte, o mar imenso 
Era um caminhinho roxo... 

E o crescente da Lua enchia o espao. 

Ah, que nunca eu sentira, como ento, 
Apegado quele cho 
Que vivo me ia engolindo, 
Um luar to subtil, to plido, to lindo, 
Um silncio to fremente, 
Umas asas to altas nos meus ombros, 
Um sangue, em minhas veias, to ardente, 
E um mundo to real de alturas e de assombros 
Dentro e fora de mim...! 

Nunca eu sentira assim. 

Olhei o cu, 
O ar, 
O longe... 

E a soluar 
Com as mos agarradas na cabea, 
Me debati, me estorci, 
Por me enterrar mais depressa! 
— Que tinha, agora, pressa de acabar. 

Mas agora... 

...Molemente, 
Quanto mais eu me torcia, 
Mais lenta, mais lentamente, 
Aquele cho me engolia! 

— De modo que ando entre a gente Nesta agonia. 
Nesta agonia.

In Poesia I - Obra completa , Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2001
José Régio
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