Como no sonho dum sonho, arde 
na mão fechada de Deus o que passou. 
É cada vez mais tarde 
onde o que eu fui sou. 

Que coisa morreu 
na minha infância 
e está lá a ser eu? 
A lâmpada do quarto? A criança? 

Em quem tudo isto 
a si próprio se sente? 
Também aquele que escreve 
é escrito para sempre. 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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