Os dois apenas entre o céu e a terra
                                  sentimos o espectáculo do mundo

        
                                         Carlos Drumond de Andrade


1.

Esta é a trégua possível, merecida,
gerada no teu ventre de mulher.
Beijo, adiado, a tua face, vida!
E deixo, livre, o coração bater.

2.

Em teu macio olhar repousa o meu.
E na face polida assim formada
se reflecte e recria o próprio céu.

3.

Uma cigarra (obrigatório tropo!)
canta, em teus seios pousada.
Uma réstia de vida. Um quase nada.
Musical e alada
discípula de Esopo

4.

Um amor como este
não pede mar ou praia:
somente o vento leste
erguendo a tua saia.

O resto é o futuro
além, à nossa espreita:
doce fruto maduro
na hora da colheita.

5.

Que sinal tua mão
ergueu, fácil, no escuro?
Que pressago ou impuro
simbolismo pagão

Que mistério odiado
no teu corpo imaturo!
Nem pressago ou impuro
rósea chaga do lado

6.

Andorinha secreta de um verão,
que só nós dois sabemos, te revelas.
De que longínqua e solitária estrela
vieste iluminar-me o coração?

De que planeta ainda inominado?
De que mistério astral, corpo solar,
patagónia celeste, ignoto mar,
provém o teu perfil sereno e amado?

7.

E, de novo, nos damos, nos propomos
como pássaros livres e seguros
de pertencer-lhes o sabor dos pomos.

8.

Em tuas mãos obreiras nascem flores.
Em teu sexo germinam alvoradas,
manhãs de outono sem clarões de espadas
riso, perfume, cores.

9.

como açucena, abre-se o teu rosto
por sobre a doce, tímida paisagem:
serena imagem
na manhã de Agosto.

Como magnólia, vertes o perfume
das tuas ancas sobre o pinheiral:
ávido lume,
casto e sensual.

Como pinho selvagem, te recebo
e amo no chão da areia ensolarado:
ingénuo efebo
deslumbrado.

10.

Tão próxima a colheita!
Tão amável o dia!
(Um gnomo verde espreita
tua figura esguia).

Tão claro e manso o rio!
Tão distante o horizonte!
(Um véu de névoa e frio
veste de espanto o monte.)

Tão próxima a partida!
Tão cedo para a morte!
(A secreta ferida
da vária, esquiva sorte).

Tão para pouco amor!
Tão solitário o medo!
(Entre o mar e a flor,
desvendo o teu segredo.)

No seio do fruto estás,
sorridente e igual,
Quase humano e animal
ansioso de paz.

Igual e sorridente,
permaneces ainda
no seio da trégua finda.
E tudo é diferente.

Mais lúcido o metal
das espadas coroa
a divina pessoa
que em ti, serena e igual,

espera desde criança,
no país ocupado,
o som claro e doirado
da trombeta da esperança.

 


In A Invenção do Amor e Outros Poemas , Presença, 1972
Daniel Filipe
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