Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
        Que já bebeu na vida,
        Para quem tudo é novo
        E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
        Corta à flor como a ele
        De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
     Que o seu sabor orgíaco
     Apague o gosto às horas,
     Como a uma voz chorando
     O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
     E apenas desejando
     Num desejo mal tido
     Que a abominável onda
     O não molhe tão cedo.

 

19 - 6 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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