Não quero nada, nem palavras, nem verdade.
Umas e outras o que são?
Pedaços cortados da realidade,
Momentos de diástole do coração.
 
Não quero nada. Pensei até não pensar.
Imaginei até me agarrar de medo
Ao mais pequeno bocado de céu ou de mar
Só por ser e por isso me não meter medo.
 
Nexo inútil entre o que sou e quem sou,
Metafísica falsa das sensações mortas...
Não quero nada. Sou um mendigo cego que vou
Batendo, numa vila deserta, a todas as portas...
13 - 5 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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