Trouxeram-na morta,
Tirada da água...
Trouxeram-na morta...
Tocaram os sinos
Por toda la magoa
De anciões e meninos...

Trouxeram-na quatro
Seus olhos sem par
Não tinham fulgor
Trouxeram-na quatro.
Seu noivo, o alvar,
Seu irmão maior
E um que a viu achar.

No rio a encontraram,
No rio a entreviram...
No rio a encontraram
De brancuras corando...
Seu nome era brando...
Do rio a tiraram...

Sua boca era muda...
Algas seus cabelos
Sua boca era muda...
Seus olhos — só vê-los
Sonhava revê-los
Na antiga postura
Em que eram tão belos...
No rio a encontraram
À tarde, à aventura...

A quatro a trouxeram
P’ra casa dos pais...
A quatro a trouxeram
Chorando, chorando
P’ra casa dos pais...
Seu nome era brando
Como a dor sem ais...

Trouxeram-na morta...
Tão branca, sem par
Sua □ absorta,
Só em se deixar
Ficar assim morta.
Que importa? Que importa?
Deus há-de explicar.

26 - 5 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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