No fundo do pensamento
Tenho por sono um cantar,
Um cantar velado e lento,
Sem palavras a falar.

Se eu pudesse tornar
Em palavras de dizer
Todos haviam de achar
O que ele está a esconder.

Todos haviam de ter
No fundo do pensamento
A novidade de haver
Um cantar velado e lento.

E cada um, desatento
Da vida que tem que achar,
Teria o contentamento
De ouvir esse meu cantar.

17 - 3 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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