Na minha atenção há horas insanas
Alegres no meu ver...
As cousas têm (fito-as a tremer)
Fisionomias humanas
Mas sem as ter...

Com consciência no olhar que não têm fitam-me
Os muros, as portas
Com um rictus na face inexistente meditam-me
Os postes,□ mortas...

E toda a Natureza é minuciosamente
Um mar de horror
Em toda a parte, tudo é pavidamente
Gente — até cada cor...

Cala-te... Não fales... A tua voz é tudo
Entes, corpos de som, com vida...
Tudo em redor finca garras de consciência
Em mim, presa □

Chove... Os pingos da água são cada um
Indivíduos e horror...
Onde fugir? Neste mar não há porto nenhum!
Ó pavor! Ó pavor!

Apaga-me, fecha a consciência à chave
Num cárcere de morte,
Morte total... Morte onde enfim
□ acabe.

Tudo se alarga, torna ente e homem e atento.
Eu gelo em meu cárcere gritos de medo...
Tudo me expõe com voz visível um horroroso pensamento
E me segreda com boca irreal e visível em segredo.

E de repente, boca [.], eu sinto-me vário
Cada célula de mim tem vida própria, pensa...
E eu sou um mar de horrores consciente, sobre que, densa,
Paira a bruma da minha individualidade,’

Disperso-me... O que sou, e que vejo, todo eu
Exterior a que eu mesmo além-pertenço.
E eu não sei o que sou, apenas sei
Que sou a voz da consciência vária
Em mim...


□ espaço deixado em branco pelo autor

[.] palavra ilegível

 

2 - 8 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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