— O senhor engenheiro não conhece aquela cantiga?
— Qual cantiga, mulher?...
— Aquela muito antiga. Então não conhece?
Aquela que é assim —
  Toda esta noite choveu…
— Sim, lembro-me, vai-te embora!

— Sim, lembro-me.
Sei lá se me lembro.
Sei que me lembro agora.
Sei que me lembro agora de toda a vida possível,
A verdadeira, a essencial…
Aquela em que
  Toda a noite choveu
  Nas gargulinhas da praça
Sei lá (ó meu coração) o que são gargulinhas da praça!
Mas que musique de fond de todos os seres
Me foi esta cantiga?
Com que então
  Toda a noite choveu
  Nas gargulinhas da praça…

E eu aqui, eu aqui, eu aqui,
Tão definitivamente aqui!
Tão irremediavelmente aqui!

Onde é que está essa praça?
Onde é que está essa noite?
Onde é que está essa chuva?
E tu, Senhora D. Maria,
E tu, tu, boquinha de cravo roxo?

Tenho passado por muitos cansaços
Cheios de vagas esperanças de um futuro qualquer.
Tenho dormido muitas vezes
Ao relento de todos os sonhos…
Tenho sido inútil, fruste, incongruente —
Como isso que está aí fora e é a vida.
Tenho sido estes nadas fúteis.

Senhora D. Maria,
Quando eu um dia te encontrasse
Ah, quanto te amaria!
E com quanto amor de todos os que amaram sem futuro!
Mas quando é que chove toda a noite
Na gargulinhas da praça?
Quando? E onde? onde?
Boquinha de cravo roxo?

Eras tu, eras tu, aquela que sempre amei!
Mas não sabia o teu nome — sei-o agora.
Não sabia como eras — sei-o agora…
Senhora D. Maria
Boquinha de cravo roxo
Já te conheço melhor, mas não estou mais perto de ti.
Perco-te mais porque te conheci.

 


In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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