O papel que me escreveste
Era uma carta a fingir.
Não foi isso que disseste.
Se acredito, é para rir.

Foi isto, não foi aquilo.
Razões tem-nas quem as tem.
Não me ralo. Estou tranquilo.
Se estás contente, está bem.

Palavras e assim é tudo.
Cá por mim, são as que são.
Quando é preciso, sou mudo,
E falo noutra ocasião.

Leio e releio de chofre
A carta que nada diz.
Sei lá se a minha alma sofre.
Sabe alguém se é infeliz?

5 - 9 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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