DE ALMENO E BELISA, CONTINUANDO COM A PASSADA:


Passado j algum tempo que os amores
de Almeno, por meu mal, eram passados,
porque nunca Amor cumpre o que promete,
e antre verdes ulmeiros apartados,
regando pelo campo as brancas flores,
em lgrimas cansadas se derrete;
quando a linda pastora, que compete
co monte em aspereza,
co prado em gentileza,
por quem o triste Almeno endoudecia,
pela praia do Tejo discorria
a lavar a beatilha e o tranado;
j o sol consentia
que sasse da sombra o manso gado.

E acordado j do pensamento
que to desacordado o sempre teve,
viu por acerto o bem que incerto tinha.
E, porque onde Amor a mais se atreve,
ali mais enfraquece o entendimento,
no lhe soube dizer o que convinha.
Como homem que aprazada briga vinha,
a quem de fora engana
a confiana humana,
e despois, vendo o rosto a quem resiste,
treme, teme o perigo, e no insiste,
j se arrepende, a audcia lhe falece:
destarte o pastor triste
ousa, arreceia, esfora e enfraquece.

E tendo assi atnito o sentido,
cometeu com furor desatinado,
e tirou da fraqueza o corao.
Cometimento faz desesperado,
que ũa s salvao tem um perdido:
perder toda a esperana salvao.
As mgoas, que passaram, se diro;
mas as que ela dizia,
lembrando-lhe que via
as guas murmurar do Tejo amenas,
remeto a vs, Tgides Camenas,
que, de mgoa, no posso dizer tanto,
porque em tamanhas penas
me cansa a pena e a dor me impede o canto.

BELISA pastora

Que alegre campo e praia deleitosa!
E quo saudosa faz esta espessura
a fermosura anglica e serena
da tarde amena! E quo saudosamente
a sesta ardente abranda, suspirando,
de quando em quando, o vento alegre e frio!
No fundo rio os mudos peixes saltam;
no ar se esmaltam os cus de ouro e verde
e Febo perde a fora da quentura.
Pola espessura levam passeando
o gado brando, ao som das sanfoninas,
pisando as finas e fermosas flores,
os guardadores que, cantando, o gesto
fermoso e honesto das pastoras que amam,
ao ar derramam mil suspiros vos.
Um louva as mos, e outro os olhos belos,
outro os cabelos de ouro, em som suave;
a amorosa ave leva o contraponto.
Mas oh! que conto, e que saudosa histria
que na memria aqui se me oferece!
Se no me esquece, j neste lugar
ouvi soar nos vales algum dia,
e respondia o Eco o nome em vo
num corao, Belisa retumbando.
Estou cuidando como o tempo passa
e quo escassa toda alegre vida;
e quo comprida, quando triste e dura.
Nesta espessura longo tempo amei;
se me enganei com quem do peito amava,
no me pesava de ser enganada.
Fui salteada, enfim, de um pensamento,
que um movimento tinha casto e so.
Conversao foi fonte deste engano
que, por meu dano, entrou com falsa cor.
Porque o amor, na Ninfa que segura,
entra em figura de vontade honesta.
Mas que me presta, agora, dar desculpa?
Se a houve culpa, p-la o firme Amor
s num pastor, que nunca o Sol nem Lũa
ou serra algũa, desde o Ibero ao Indo,
viram outro to lindo e to manhoso.
Neste amoroso estado e f que tinha
c n'alma minha to secretamente
vivi contente, amando e encobrindo.
Ele, fingindo mentirosos danos,
que so enganos que no custam nada,
tendo alcanada j no entendimento
a f e intento meu s nele posto
- que logo o rosto mostra os coraes,
e as afeies cos olhos se praticam,
que mais publicam muito que palavras –,
com suas cabras sempre parte vinha
onde eu mantinha os olhos e o desejo.
Tu, manso Tejo, e tu, florido prado,
do mais passado, enfim, que aqui no digo,
sereis, me obrigo, testemunho certo,
que descoberto vos foi tudo e claro.
tempo avaro, sorte nunca igual,
camanho mal quereis humana gente!
Porque um contente estado assi trocastes?
Vs me tirastes do meu peito isento
o pensamento honesto e repousado,
j dedicado ao coro de Diana;
vs Nũa ufana vida me pusestes,
e ali quisestes que gozasse o dano
do doce engano que se chama amor,
com cujo error passava o tempo ledo.
E vs to cedo me tirais um bem
que Amor j tem impresso n'alma minha
– despois que a tinha envolta em esperanas –
e com lembranas tristes me deixais?
Mal me pagais a f que sempre tive.
Mas assi vive quem sem dita nace.
Mas j que a face alegre o Sol esconde
e no responde algum a tantas mgoas,
seno as guas que dos olhos saem,
as sombras caem, e vo-se as alimrias,
das ervas vrias fartas, seu caminho;
buscando o ninho os pssaros sem dono
j pelo sono esquecem o comer;
quero esquecer tambm to doce histria,
pois memria que traz mor cuidado.
Isto passado e, se me deu paixo,
os dias vo gastando o mal e o bem,
e no convm querer-me magoar
do que emendar no posso j com mgoas.
Nas claras guas deste rio brando,
que vo regando o campo matizado,
este tranado lavar quero enfim;
que j de mim m'esqueo coa lembrana
desta mudana, que esquecer no sei.
Inda que eu mudarei a opinio:
que, enfim, homens so, a que o esquecimento
depressa faz mudar o pensamento.

ALMENO

Se a vista no me engana a fantasia
— como j me enganou mil vezes, quando
minha ventura enganos me sofria —,

parece-me que vejo estar lavando
ũa Ninfa um vu no claro Tejo,
que se me est Belisa afigurando.

No pode ser verdade isto que vejo;
que facilmente aos olhos se afigura
aquilo que se pinta no desejo.

Oh, acontecimento que a ventura
me d para mor dano! Esta , certo,
que no doutrem tanta fermosura.

Se poderei falar-lhe mais de perto?
Mas fugir-me-; no pode ser, que o rio
para acol no tem caminho aberto.

Oh, temor grande! Oh, grande desvario,
que a voz me impide, e a lngua negligente
destarte est tornando o peito frio!

De quanto me sobeja estando ausente,
que para lhe falar sempre imagino,
tudo me falta agora em estar presente.

Oh, aspeito suave e peregrino!
Pois como to asinha assi se esquece
ũa f verdadeira, um amor fino?

BELISA

altas semideias! Pois padece
em vosso rio a honra delicada
de quem tamanha fora no merece?

Ou seja por vs, Ninfa, reservada,
ou nalgũa rvore alta ou pedra dura
seja por vs asinha transformada.

ALMENO

Ah! Ninfa! No te mudes a figura;
nem vs, deusas, queirais que eu seja parte
de se mudar tamanha fermosura.

Porque a quem falta a voz para falar-te,
e a quem falece a lngua e ousadia
tambm faltaro mos para tocar-te.

BELISA

Que me queres, Almeno, ou que porfia
foi a tua, to spera, comigo?
Minha vontade no to merecia.

Se com o amor o fazes, eu te digo
que amor que tanto mal me faz em tudo
no pode ser amor, mas inimigo.

No s tu de saber to falto e rudo
que to sem siso amasses como amaste.

ALMENO

Onde viste tu, Ninfa, amor sesudo?

Porque te no alembra que folgaste
com meus tormentos tristes, e algu' hora
com teus fermosos olhos me olhaste?

Como te esquece j, gentil pastora,
que folgavas de ler nos freixos verdes
o que de ti escrevia cada hora?

Como to presto assi a memria perdes
do amor que mostravas, que eu no digo,
se vs, altos montes, no disserdes?

Porque te no alembras do perigo
a que, s por me ouvir, te aventuravas,
buscando horas de sesta, horas de abrigo?

Coa ma de discrdia me tiravas;
que Vnus que a ganhou por fermosura,
tu, como mais fermosa, lha ganhavas.

E, escondendo-te entre a espessura,
ias fugindo como vergonhosa
da namorada e doce travessura.

No era esta a ma de ouro fermosa
com que encoberta assi de astcia tanta
Cidipe se enganou, de cobiosa;

nem a que curso teve de Atalanta;
mas era aquela com que Galateia
o pastor cativou, como ele canta.

Se ms tenes puseram ndoa feia
em nosso firme amor, de enveja pura,
porque pagarei eu a culpa alheia?

Quem desta f, quem deste amor no cura,
nunca teve sujeito o corao;
que o firme amor coa alma eterna dura.

BELISA

Mal conheces, Almeno, ũa afeio;
que, se eu desse amor tenho esquecimento,
meus olhos magoados to diro.

Mas teu sobejo e livre atrevimento
e teu pouco segredo, descuidando,
foi causa deste longo apartamento.

Vs as ninfas do Tejo que, mudando
me vo j, pouco a pouco, o claro gesto,
noutra forma mais dura traspassando?

Um s segredo meu te manifesto:
que te quis muito, enquanto Deus queria,
mas de pura afeio e amor honesto.

E pois teu mau cuidado e ousadia
causou to dura e spera mudana,
folgo que muitas vezes to dizia.

Fica-te embora, e perde a confiana
que mais me no vers, como j viste,
que assi se desengana ũa esperana.

ALMENO

duro apartamento! vida triste!
nunca acontecida desventura!
Pois como, Ninfa, assi te despediste?

Assi se h-de ir tornando sem ter cura
nessa silvestre e spera rudeza
to branda e excelente fermosura?

Tua nunca entendida gentileza
e teus membros assi se transformaram,
negando-se-lhe a prpria natureza?

Destarte teus cabelos se tornaram,
deixando j seu preo ao ouro fino,
em folhas, que a cor tm do que negaram?

Se este consentimento foi divino,
consinta-me tambm que perca a vida,
antes que a mais me obrigue o desatino.

Que se a Fortuna dura embravecida
tanto em meu tormento se desmede,
no viva mais ũa alma to perdida.

E vs, feras do monte, pois vos pede
minha pena o remdio derradeiro,
fartai j de meu sangue vossa sede.

E vs, pastores rudos deste outeiro,
por que a todos, enfim, se manifeste
que cousa amor puro e verdadeiro,

ao p deste funreo acipreste
me fareis um sepulcro sem arreio,
de boninas que o prado ameno veste.

Com desusadas msicas de Orfeio
que me vs cantareis; e, desta sorte,
no haverei enveja ao Mausoleio.

E por que minha cinza se conforte,
em vossos metros doces e suaves
as exquias fareis de minha morte.

Ali respondero as altas aves,
no mdulas no canto, nem lascivas,
mas de dor ora roucas, ora graves.

No correro as guas fugitivas
alegres por aqui, mas saudosas,
que paream que vm dos olhos vivas.

Nacero pelas praias deleitosas
os speros abrolhos em lugar
dos roxos lrios, das pudicas rosas.

No traro as ovelhas a pastar
d' arredor do sepulcro os guardadores,
que no comero nada, de pesar.

Viro os Faunos, guarda dos pastores,
se morri por amores perguntando.
Respondero os ecos: «Por amores».

E para os que aqui forem caminhando,
um epitfio triste se ler
que esteja minha morte declarando,

e no tronco dũa rvore estar
Nũa ruda cortia pendurado;
escrito cũa fouce, assi dir:

«Almeno fui, pastor de manso gado,
enquanto consentiu minha ventura
de Ninfas e pastoras celebrado.

Se algũa hora, por dita, na espessura
se perder o amor e a afeio,
tirem a pedra desta sepultura,
e em figura de cinza os acharo.»

Luís Vaz de Camões
[PASSADO JÁ ALGUM TEMPO QUE OS AMORES]
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