Visitámos desertos, e os lugares
Onde outrora viveram as pintadas
Capitais dos impérios solitários,
Impérios hoje só deserto e assombro.
Nossa memória antiga andou connosco
Pelos vestígios e as sepultas ruínas
Com o sentido trágico das sombras
Escrita em sua boca dolorida.
Visitámos os lívidos espaços
Donde os vestígios das cidades mortas
Olhavam para nós, órbitas ocas,
Sem os olhos da vida que viveram.
Nas nossas almas, como sobre um lago,
Passou a sombra fria da Memória
E a Morte remexeu na escuridão.
 
Tínhamos, entre exílios desta vida,
Um momento solene convivido
Com as antigas civilizações.
Nosso afastado ser, sonhado e vasto,
Tinha entrado nos templos e os palácios
Das cidades d’outrora, e tinha visto
As cerimónias régias doutros tempos
Passar, pompas asiáticas na pompa,
Com luxos de ouro, pálios constelados
E um luzir de armas sob o sol eterno.

 

10 - 5 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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