Não, não é esta astúcia do luar,
Nem este aroma vindo, ou do arvoredo,
Ou das flores que entre ele desfolhar
Um vento incerto e quedo,
Que há-de arrancar-me o meu segredo.

Sim, tudo isso, traduzido na alma,
É uma figura inteira de mulher
Que acaricia, perigosa e calma,
É um oásis longínquo, alvor de palma,
É o que toda a gente quer.

Mas não saio do meu assombro
De quem ouviu os astros a cantar
E isso me vela e inibe.
É tudo o amor: visão, mulher, palmar.
Mas vou a ver e toca-me no ombro,
Para eu p’ra trás olhar
O Mestre que consola e que proíbe.

20 - 9 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar