OH QUEM ME DERA mais ou menos
 Que a vida, qualquer cousa
Que tornasse os céus calmos mais serenos
E não deixasse a alma sequiosa
Nem nos fizesse os gozos tão pequenos.

 A oca angústia da vida
 O tédio de sentir-me
Um momento que cessa.
Meu pensamento que crer não duvida
 Em mistério e mim.’

Sem cessar o olhar ansiado
Encontra sempre ao fundo um horizonte
Que é sempre mudo e sempre interrogado
E mora em casas de cidade ou monte
 E sempre o ignorado.

Sempre o cansado pensamento
Encontra, ao fundo
De cada vida e cada sentido
O horizonte interior, oco e profundo,
Do mistério de haver a alma e o mundo...

Sempre o esforço falece
Ante não perceber para que existe...
A alma nua estremece
No frio escuro de que o ser é triste
Quando percebe que não tem razão
Para gozar, pensar, querer ou não...

Sempre, sempre, sem fim
Um norte, um guia certo mas é oculto
E eu olho e □ dentro de mim
Vejo como que um vulto
 
Que misteriosamente não conheço
E sou eu... Ignorando-me estremeço...

Que intentos me conduzem
Para onde e porquê?
Nem faróis longe luzem
Que vida que os não percebe a alma os vê.

Quem me dera fruir
Num nexo, ainda que falso, à minha vida...
Num conceito de esforço e de □ lida
Como uma estátua frágil a minha parte
Nas mãos da minha análise se parte...

□ espaço deixado em branco pelo autor

6 - 10 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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