Quanto mais desço em mim mais subo em Deus...
Sentei-me ao lar da vida e achei-o frio,
Mas pus tão alta fé nos sonhos meus
      Que ardente rio
Do puro Compreender e alto Amor,
Da chama espiritual e interior
Deu nova luz ao meu alheio olhar
      E às minhas faces cor...
E esta fé, esta lívida alegria
Com que, alma de joelhos, creio e adoro,
É a minha própria sombra que me guia
      Para um fim que eu ignoro...
Porque Deus fez de mim o seu altar
Quando Ele me nasceu tal como sou,
Se p’ra minha alma volvo um quasi-olhar
      Não me vejo onde estou.
Eu tenho Deus em mim... Em Deus existo
Quando crê, cega, acha-o minha fé calma...
Maria-Virgem concebeu um Cristo
      Dentro em minha alma...
Alma fria de Altura; que os seus céus
Dentro em si própria acha... Para si morta
Em Deus... Mas o que é Deus? E existe Deus?
      Isso que importa?
10 - 1 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar