Libertos de mim os sentidos 
e eu deles liberto, 
do lado de fora do olvido, 
do oculto e do incerto, 

irrompe como um corpo 
de novo a alegria 
onde antes havia 
eu, o inconcreto morto. 

Canta, nostalgia, 
em mim, que sou o canto, 
e que absoluto me levanto 
como nasce o dia. 

Não sou eu que falo? 
Não ouço o meu silêncio? 
Não sou eu que estou 
diante do espelho? 

Ou, pelo menos, não 
estou aqui por perto? 
Não sou a ilusão 
e o quarto concreto?
 
Isto, não sou eu que o digo? 
Não estou dentro de mim 
e fora de mim, 
e o fora de mim dentro de mim? 


In POESIA REUNIDA , Assírio & Alvim, 2001
Manuel António Pina
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