Na estalagem a meio-caminho
Entre o sonho e a vida
Cheguei sozinho,
Sem esperança ou carinho

Nunca ali passei
E nunca de ali saí.
Ali, em mim, como rei,
Podia reinar, bem sei;
Mas o esforço e uma sombra, e não’ existe em si.

Não morei onde estive,
Não vivo onde ‘stou.
Sonho como quem vive
Na estalagem do declive
De mim p’ra mim, de quem não sou p’ra quem sou.

6 - 4 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar