O dia 'splende, luminoso e vasto.
O grande rio é mar; quem o vê rio?
Com o que vejo quem eu sou contrasto,
E aqui onde há calor ‘stou onde há frio.

Desde que existo, vivo dividido
Entre três seres, em que iguais estou:
O meu ser, o meu ser que tenho sido
E o verdadeiro ser que nunca sou

Quantas traições e desentendimentos
Entre estes meus três seres descobri!
E eu assisti a tudo, como a estradas
Que, veículo deles, percorri.

Hoje que, alheio a tudo e a mim mesmo,
Posso, à luz deste dia vasto e rico,
Verificar que fui um ser a esmo,
É ainda a esmo que eu o verifico.

Não tenho cura: tudo quanto fui
É quanto eu hei-de ser, sem outra pele.
Sem saber de fluir, o rio flui.
Sei que fluo, mas fluo como ele.

7 - 2 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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