Ao pé dos salgueirais da margem,
Não tenho o barco nem o sono.
Adio o sonho e a viagem,
E ao pé dos salgueirais da margem
A mim me deixo ao abandono.

O rio passa largamente,
Fazem cortinas verdes bem
Os salgueirais sobre a corrente,
E o rio passa largamente,
E eu fico, pois não sou ninguém.

A curva súbita do rio
Vela a quem é quem pode ser.
Cai na água, coração vazio,
E, ermo boiando, sem saber,
Na curva súbita do rio
Perde-te e deixa-me esquecer!

5 - 9 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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