A ũa Dama:

FRONDOSO E DURIANO, PASTORES


Cantando por um vale docemente,
deciam dous pastores, quando Febo
no reino de Neptuno se escondia.
De idade, cada um era mancebo,
mas velho no cuidado, e descontente
do que lhe ele causava parecia.
O que cada um dizia,
lamentando seu mal, seu duro Fado,
no sou eu to ousado
que o ouse a cantar sem vossa ajuda;
porque, se a minha ruda
frauta, deste amor vosso for dina,
posse escusar a fonte cabalina.

Em vs tenho Helicon, tenho Pegaso;
em vs tenho Calope, em vs Talia
e as outras sete irms do fero Marte;
em vs perde Minerva sua valia;
em vs esto os sonos de Parnaso;
das Pirides em vs se encerra a arte.
Coa mais pequena parte,
Senhora, que me deis da ajuda vossa,
podeis fazer que eu possa
escrever ao sol resplandecente;
podeis fazer que a gente
em mim do gro poder vosso se espante
e que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que crea de hora em hora
o nome lusitano, e faa enveja
a Esmirna, que de Homero se engrandece.
Podeis fazer tambm que o mundo veja
soar na rude frauta o que a sonora
ctara mantuana se merece.
J agora me parece
que podem comear os meus pastores
tratar de seus amores;
porque, ainda que presentes no estejam
as que eles ver desejam,
mudana do lugar, menos de estado,
no muda um corao de seu cuidado.

J deixava dos montes a altera
e nas salgadas ondas se escondia
o sol, quando Frondoso e Duriano,
ao longo de um ribeiro que corria
pola mais fresca parte da verdura,
claro, suave e manso, todo o ano,
lamentando seu dano,
vinha j recolhendo o manso gado.
E um estando calado,
enquanto um pouco o outro se queixava,
aps ele tornava
a dizer de seu mal o que sentia;
e, enquanto ele falava, o outro ouvia.

Vinham-se assi queixando aos penedos,
aos silvestres montes e aspereza,
que quase de seus males se doam.
Ali as pedras perdiam sua dureza;
ali os correntes rios estar quedos,
prontos a suas queixas, pareciam;
e se as que podiam
estes males curar, que elas causavam,
o ouvido lhe negavam
por perderem de todo a esperana;
mas eles, que mudana
de amor com tantos males no faziam,
falando inda com elas lhes diziam:

FRONDOSO

Isto o que aquela verdadeira
f, com que te amei sempre, merecia,
sem nunca te deixar um s momento?
Como, cruel Belisa, te esquecia
um mal cuja esperana derradeira
em ti se tinha posto seu assento?
No vias meu tormento?
No vias tu a f com que te amava?
Porque no te abrandava
este amor que me tu to mal pagaste?
Mas, pois j me deixaste
coa esperana de ti toda perdida,
perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Se os males que por ti tenho sofrido
— Silvana, em meus males to constante! —
quiseras que algu' hora te dissera,
ainda que de duro diamante
fora to cruel peito endurecido,
creio que a piadade te movera.
J agora em branda cera
os montes so tornados e os penedos;
e os rios, que esto quedos,
sentiram meus suspiros, minhas queixas.
Tu s, cruel, me deixas,
que s, mais que montes e penedos, dura,
e fugitiva mais que a gua pura.

FRONDOSO

Onde est aquela fala, que soa,
se com seu doce tom que me chegava,
a avivar-me os espritos cansados?
Onde est o olhar brando, que cegava
o sol resplandecente ao meio-dia?
Onde esto os cabelos delicados
que, ao vento espalhados,
o ouro escureciam, e a mim matavam?
E a quantos os olhavam
causavam tambm novos acidentes?
Porque, cruel, consentes,
que goze outro a glria a mim devida?
Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

No vejo bem j que a meu mal espere,
seno se esperar que morte dura
enfim me venha dar tua saudade.
Vejo faltar-me a tua fermosura;
a vontade me diz que desespere,
contradiz-me a razo esta vontade.
Diz que Nũa beldade
em quem mostrou o cabo a natureza,
no h tanta crueza
que um to firme amor desprezar queira
e ũa f verdadeira;
mas tu, que de razo nunca curaste,
porque era dar-me a vida, ma tiraste.

FRONDOSO

A quem, Belisa ingrata, te entregaste?
A quem deste, cruel, a fermosura,
que s a meu tormento se devia?
Porque ũa f deixaste, firme e pura?
Porque to sem respeito me trocaste
por quem s nem olhar-te merecia?
E o bem que te queria,
que nunca perderei seno por morte,
no de maior sorte
que quanto a cega gente estima e preza?
Se a tua crueza
foi nisto contra mim endurecida:
perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Levaste-me meu bem num s momento;
levaste-me com ele, juntamente;
de cobr-lo jamais a confiana;
deixaste-me, em lugar dele, somente
ũa continua dor, e um tormento,
um mal em que no pode haver mudana.
Tu, que eras a esperana
dos males que me tu, cruel, causaste,
de todo te trocaste,
com Amor conjurada em minha morte.
Porm, se minha sorte
consente que por ti seja causada,
morte no foi mais bem-aventurada.

FRONDOSO

No naceste de algũa pedra dura;
no te gerou algũa tigre hircana;
no foi tua criao entre a rudeza.
A quem, cruel, saste desumana?
No Cu formada foi tua fermosura,
onde a mesma brandura e natureza;
esta tua dureza
donde teve princpio, ou a tomaste?
Porque, dura, enjeitaste
um verdadeiro amor que tu bem vias,
ũa f, que conhecias,
por outra de ti nunca conhecida?
Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Vai-se co seu pastor o manso gado,
porque de amor entende aquela parte
que a bruta Natureza lhe ensina.
O rstico leo sem nenhũa arte
do instinto natural s ensinado,
aonde sente amor, ali se inclina.
E tu, que de divina
no tens menos que Vnus e Cupido,
porque sequer co ouvido
um amar verdadeiro no socorres?
Ou porque te no corres
que te vena o leo em piadade,
se Vnus no te vence na beldade?

FRONDOSO

A mim no me faltava o que se preza
entre os celestes deuses, que formaram
a tua mais que humana fermosura;
em mim os voluntrios Cus faltaram;
em mim se perverteu a natureza
dũa cruel, fermosa criatura.
Mas pois, Belisa dura,
que do mais alto Cu a ns vieste,
e em peito celeste
um tal contrrio pde aposentar-se,
no contrrio achar-se
tamanha f to mal agradecida.
Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Por ti, a noite escura me contenta;
por ti, o claro dia me avorrece;
abrolhos para mi so frescas flores;
a doce filomela me entristece;
todo o contentamento me atormenta
com a contemplao de teus amores;
as festas dos pastores,
que podem alegrar toda a tristeza.
Em mim tua crueza
faz que o mal cada hora v dobrando.
cruel! At quando
durar em ti um tal avorrecimento?
E a vida, em mi, que sofre tal tormento?

FRONDOSO

Fugiste de um amor to conhecido,
fugiste de ũa f to clara e firme,
e seguiste a quem nunca conheceste,
no por fugir de Amor, mas por fugir-me;
que bem vias que tinha merecido
o amor que tu a outrem concedeste.
A mim no me fizeste
nenhũa sem-razo, que bem conheo
que tanto no mereo;
fizeste-a quele bem, firme e sincero,
que sabes que te quero,
em lhe tirar a glria merecida.
Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Crece cada hora em mim mais o cuidado,
e vejo que em ti crece juntamente
cada hora mais de mim o esquecimento.
Silvana cruel, porque consente
o teu feminil peito delicado
esquecer-lhe um to spero tormento?
Tal avorrecimento
merece um capital teu inimigo;
no j'eu, que s contigo
estou contente, e nada mais desejo,
se algũa hora te vejo.
Tu s um s bem meu, ũa s glria,
que nunca se me aparta da memria.

FRONDOSO

Olhos que viram j tua fermosura;
vida que s de ver-te se sustinha;
vontade, que em ti era transformada;
ũa alma que a tua em si s tinha,
to unida consigo quanto a pura
alma co dbil corpo est pegada,
e agora apartada
te v de si com tal apartamento...
Qual ser seu tormento?
Qual ser aquele mal que tem presente?
Maior que o que sente
o triste corpo na ltima partida.
Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Regendo noutro tempo o manso gado,
tangendo minha frauta nestes vales,
passava a doce vida alegremente.
No sentia o tormento destes males;
menos sentia o mal deste cuidado,
que tudo ento em mim era contente.
Agora, no somente
desta vida suave me apartaste,
mas outra me deixaste
que, ao duro mal que sinto c no peito,
me tem j to afeito
que sinto j por glria minha pena;
por natureza, o mal que me condena:

Juntamente viver compridos anos
os Fadas te concedem, que quiseram
ajuntar-te com tal contentamento.
Pois para ti os bens todos naceram,
tormentos para mim, males e danos,
logra tu s teu bem; eu, meu tormento.
Nenhum apartamento,
Belisa, me far deixar de amar-te,
porque em nenhũa parte
poders nunca estar sem mim ũa hora.
Consente pois agora
que, em pago desta f to conhecida,
perca, quem te perdeu; tambm a vida.

DURIANO

Veja-te eu, crua, amar quem te desame,
porque saibas que cousa ser amada
de quem tu avorreces e desprezas.
Veja-te eu ser ainda desprezada
de quem tu mais desejas que te ame,
por que sintas em ti tuas cruezas;
sintas tuas durezas,
e quanto pode o seu cruel efeito
num corao sujeito.
Porque, em sentindo o mal que eu sinto agora,
espero que algu' hora
faa o teu prprio mal de mim lembrar-te,
j que no pde o meu nunca abrandar-te.

FRONDOSO

Mil anos de tormento me parece
cada hora que sem ti e sem esperana
vivo de poder mais tornar a ver-te.
Sustenta-me esta vida tua lembrana;
a vida sobre tudo me entristece;
a vida antes perdera que perder-te.
Mas eu, se por querer-te,
um bem que em ti s tem seu firme assento
padece tal tormento
que inda espera por ti quem te desame,
ou ao menos te ame
com algum falso amor ou f fingida,
perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Ento, cruel, vers se te merece
com tamanho desprezo ser tratada
ũa alma, que de amar-te, s se preza.
Mas como podes tu ser desprezada,
se o menos que em ti fora, se parece,
abrandar pode montes e aspereza?
Porque se a Natureza
em ti o remate ps da fermosura,
qual ser a pedra dura
que a teu valor resista brandamente?
Quanto mais fraca gente,
que ao humano parecer no se defende,
e a mesma Vnus deusa ao teu se rende?

FRONDOSO

E pois f verdadeira, amor perfeito,
tormento desigual e vida triste,
junta com um contino sofrimento
e em mal, em que todo o mal consiste,
no puderam mover teu duro peito
a amostrares sequer contentamento
de veres meu tormento;
mas antes isto tudo desprezaste,
e a outrem te entregaste,
por no me ficar nada em que esperasse,
seno quando acabasse
a vida, que a meu mal e to comprida,
perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Longo curso de tempo, e apartado
lugar, a um corao que est entregue
no podem apartar de seu intento.
Porque foges, cruel, a quem te segue?
No vs que teu fugir escusado,
que sem mim nunca ests um s momento?
Nenhum apartamento
– inda que a alma do corpo se aparte –,
poder ausentar-te
desta alma triste que, continuamente,
em si te tem presente.
Torna, cruel; no fujas a quem te ama:
vem dar a morte ou vida a quem te chama.

A noite escura, triste e tenebrosa,
que j tinha estendido o negro manto,
de escuridade a terra toda enchendo,
fez pr a estes pastores fim ao canto,
que ao longo da ribeira deleitosa
vinham seu manso gado recolhendo.
Se aquilo que eu pretendo
deste trabalho haver, que todo vosso,
Senhora, alcanar posso,
no ser muito haver tambm a glria
e o lauro da vitria,
que Virglio procura e haver pretende,
pois o mesmo Virglio a vs se rende.

Luís Vaz de Camões
[CANTANDO POR UM VALE DOCEMENTE]
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