Princesa que morreste
No meu castelo antigo,
Tuas mãos — nunca as deste
Ao meu afago amigo...
A orla da tua veste —
Que teve ela comigo?

Expiraste e já eras
Morta e não sei onde...
(Perfume das primaveras
O que o teu seio esconde)
Debruço-me sobre as eras
E chamo... Ninguém me responde.

Haverá algum dia
E alguma hora real
Em que a minha mão fria
Encontra a tua afinal
E a minha dor seja alegria
E meu bem o meu mal.’

Não sei... E não sabê-lo
Cansa-me de te amar.
A cor do teu cabelo?
Não a posso sonhar.
O teu olhar? É belo...
Mas tu não tens olhar...

Talvez me esperes? Quem sabe.
Tudo morreu em mim.
Na tua ida cabe
O nunca teres fim...
O mundo que desabe
E eu ter-te-ei enfim.

 

 

6 - 11 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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