Não digas nada! Que hás me de dizer?
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia a cadafalso
Ao que ali um dia vai morrer.
Mais vale não querer.
 
Sim, não querer, porque querer é um monte, 
Ponto  no horizonte de onde estamos,
E que nunca atingimos nem achamos.
Presos locais da ida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.
 
Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo uma ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.
 
Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que nos fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.

8 - 7 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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