Se o rouxinol falasse, não cantava.
     Ah, um bocado de inconsciência!
Meu coração onde é que estava
     Quando eu falava com a ciência?

Não... E escusado o amor...
     Um sentimento...
Qualquer cousa que seja a flor
     De não haver (nenhum) intento...

Qualquer cousa de intervalar;
     Por imprecisa, suave...
Qualquer cousa como aquele ar
     Onde a alma é ave...

Depois, até o regresso à vida
     Tem suavidade — aquela
Que, porque foi sentida,
     É ainda a saudade dela.

Não pensar bem... Ir começando...
     Depois, interromper sorrindo...
Ave que, ainda voando,
     Vem caindo..

Memória do futuro inútil,
     Preciosa a leque e a riso seu...
E o pano apaga o drama inútil
     Que já esqueceu...

5 - 2 - 1931

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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