É um canto amargo e moço...
Cessou, ou foi mentira?
Choro porque o não ouço.
Chorara se o ouvira.

Nem sei dizer se achara
Melhor que prosseguisse
Ou se fora mais rara
Coisa que o nunca ouvisse.

Nem até sei se ouvi
O que ouvi dele, e choro
Metade do que senti,
Metade do que ignoro.

Pálida sombra de areia
Deixada em desmazelo...
Ouvi-te, ou sou só poeira
Do próprio pesadelo?

1 - 12 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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